Letras e fotogramas

“O animal cordial”: A hora da esfola

Por Alysson Oliveira em 07/08/2018
Há uma frase bastante famosa do crítico e professor Antonio Candido na qual ele comenta a tal cordialidade brasileira: “quando a Europa diz ‘mata’ o Brasil diz ‘esfola’”. Talvez a roteirista e diretora Gabriela Amaral Almeida não tivesse essa colocação em mente quando criou seu O animal cordial (talvez ela nem conheça a frase) mas é impossível não pensar como seu longa de estreia reverbera isso.
 
A premissa do filme é bastante simples e, por isso mesmo, repleta de possibilidades: restaurante de relativo luxo (mas em crise financeira) é tomado por uma dupla de ladrões pouco antes de fechar num dia de pouco movimento. A situação se torna ainda mais tensa quando se arma um jogo de disputa de pequenos e grandes poderes. A maneira como diretor arma seus personagens e a situação poderia facilmente cair numa caricatura de pessoas e da situação do Brasil contemporâneo, mas ela, segurando o longa com pulso firme, desvia de praticamente todas as armadilhas que arma para si e seu filme.
 
A primeira dessas armadilhas é um retrato de classe que O animal cordial desenha. Seus personagens poderiam ser única e exclusivamente representantes de estratos sociais. O dono Inácio (Murilo Benício) é a pequena burguesia com a corda no pescoço, mas mantendo a pose – espera que uma tal matéria que sairá numa revista trará mais movimento. Um casal (Jiddu Pinheiro e Camila Morgado) representa a elite, escolhendo vinho francês e prato chique, e esnobando a pronúncia da garçonete (Luciana Paes). Por fim, a esfera da esfola mesmo, além da garçonete, o chef (Irandhir Santos) e a sua dupla de ajudantes (Thais Aguiar e Eduardo Gomes). Por fim, um cliente misterioso (Ernani Moraes), que, a certa altura, representará o poder institucionalizado que fica, literalmente, de mãos atadas.
 
Se há tudo isso no filme, Gabriela não cai nos clichês fácies que cada uma dessas figuras poderia estampar – especialmente porque dota cada um de nuances, e o pior deles vêm à tona quando o restaurante é invadido pelos dois ladrões (Humberto Carrão e Diego Avelino). O que se sucede, então, são diferentes níveis e maneiras de opressão. A madame (Morgado) que é ridicularizada pelo namorado (Pinheiro) não pensa duas vezes antes de ridicularizar a garçonete, que também faz fofoca “das pessoas da cozinha” para o patrão, por quem parece ter uma paixão platônica. Aliança de classe seria uma saída para derrotar os bandidos – mas quem está disposto a ceder? Nem que seja o mínimo da dignidade que ainda resta. Ninguém – especialmente como confiar em alguém que já o hostilizou?
 
A dinâmica que se estabelece é a da negociação de poderes – e sempre pode mais quem tem uma arma na mão. Os ladrões tem, e o patrão também. A sedução também pode ser uma arma, mas o sexo, aqui, não tem nada de romântico ou biológico – é disputa de poder mesmo. A cena é impressionante e, obviamente propositalmente, desconfortável. O que se vê na tela é quase um ritual no qual alguém tenta tomar o poder do outro por vias físicas.
 
Até onde vai a cordialidade do brasileiro? Não muito longe, como bem sabemos. Todo mundo surta nesse filme, exceto o chef, que funciona como um centro de consciência onde tudo gravita. Ele tem consciência de classe e de gênero – talvez consciência até demais, por isso é, de certa forma, o personagem mais contido do filme. Cabe a ele dizer: “não faz isso”, tentando recobrar a razão dos personagens um a um. Ele não é o ponto mais forte do filme, e, nem sempre funciona, mas a interpretação do sempre-inspirado Irandhir Santos contorna boa parte dos problemas.
 
Premiada como curtametragista, a diretora não se acanha aqui com o uso do sangue. Mas o sangue que escorre e suja a quase tudo e todos em O animal cordial não é o mesmo, por exemplo, de, digamos, Pulp Fiction ou Jogos Mortais. Não tem nada de pop, é um sangue de uma cisão social de um país consumido por esta. É curioso que andem chamando o filme de terror, quando está mais para um drama ou mesmo uma comédia (de humor negro) satírica, na qual o objeto da sátira é o atual estado da sociedade brasileira. Só jorrando sangue pra resolver mesmo? Ou nem assim?
 
Visceral, como tantos outros adjetivos, é uma palavra que perdeu sua força. Tudo hoje é forte, visceral. Mas O animal cordial é visceral – se não de uma forma, de outra. Gabriela não tem pudores em mostrar entranhas sejam dos seres humanos, de animais ou da sociedade – sejam entranhas reais ou metafóricas.

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