Letras e fotogramas

Uma Aventura de meio século

Por Alysson Oliveira em 04/03/2010

 
Quando exibido no 13º Festival de Cannes, em 1960, A Aventura, de Michelangelo Antonioni, recebeu gargalhadas e vaias na sessão de gala. Diz a lenda que a atriz Monica Vitti saiu antes do filme acabar aos prantos, amparada pelo diretor. Pouco importa, pois alguns dias depois, o longa recebeu o segundo prêmio mais importante do evento – perdendo apenas para seu conterrâneo A doce vida, que também completa 50 anos.
 
Ao longo desse meio século, o filme ganhou notoriedade e fama. A crítica norte-americana Pauline Kael o escolheu como o melhor filme de 1961, e a revista inglesa Sight and Sound o colocou, em 1962, como o segundo filme mais importante da história do cinema – ficando atrás apenas de Cidadão Kane. A aventura ficou na lista dos 10 melhores filmes da publicação por três décadas.
 
A premiação em Cannes e a nacionalidade não são, na verdade, as únicas coisas em comum entre A Aventura e A doce vida. Para o crítico norte-americano Roger Ebert, o filme de Antonioni é ‘o outro lado da moeda’. Os diretores retratam ‘personagens em buscas vãs pelo prazer e terminam ao amanhecer com o vazio e alma pesada’.
 
A aventura é o típico filme em que ‘nada acontece’ – o que quer dizer que tudo acontece nas entrelinhas, naquilo que não se vê, não se fala. Começa com o desaparecimento de uma personagem, Anna (Lea Massari), que parece padecer com o tédio da existência. É rica e namora Sandro (Gabriele Ferzetti), mas está cansada dessa vidinha rica e vazia. Durante um passeio de iate com amigos tão ricos e vazios quanto ela, Anna desaparece.
 
Simples assim, ela some e não deixa nenhum sinal. Por algum tempo a narrativa gira em torno da busca de Anna. Eles andam pela ilha onde ela desapareceu. Sandro conta com a ajuda de Claudia (Monica). Até o pai de Anna é trazido para a ilha, e ele parece, aliás, bastante bravo por ter sido tirado de suas obrigações por conta de um incidente tão banal quanto o desaparecimento da filha.
 
Anna jamais será encontrada, e os personagens são obrigados a tocar em frente suas vidas – tanto que Sandro e Claudia acabam se envolvendo um com o outro. Por conta disso, há sempre uma tensão no ar, tanto sexual, quanto um medo de que a desaparecida retorne e retome o seu lugar, acabando com o romance entre os dois personagens.
 
Apesar do envolvimento amoroso, Sandro e Claudia buscam algo mais do que amor. Aliás, amor deve ser a última coisa que passa pela cabeça deles. Como Anna, eles são personagens à beira do abismo, prestes a desaparecer, deixar de existir, tamanha é a nulidade de suas vidas e o desespero por algum tipo de conexão com outras pessoas. É isso que os une, não o amor.
 
A Aventura inaugura uma série informal de Antonioni conhecida como a Trilogia da Incomunicabilidade, que conta também com A noite (1961) e O eclipse (1962). Melhor do que ninguém, Monica Vitti encarnou as mulheres ‘antonionimente’ alienadas, desconectadas de suas vidas, do seu momento, em busca de algo que as faça perceber porque estão vivas. Ela voltaria a fazer algo parecido em outro filme do diretor, O Deserto Vermelho (1964).
 
Meio século se passou e A Aventura ainda continua um enigma tão fascinante quanto perpétuo. Os tempos mudaram, as indagações existenciais e existencialistas também são outras – mas há algo que jamais será superado: o grande cinema de Antonioni. Há coisas que não necessitam de tradução ou explicações, como o trabalho do diretor nesse longa. Sua composição nos planos, a tensão das imagens (numa das melhores cenas, uma Claudia assustada é devorada por olhares assustadores de um bando de homens), a bela fotografia em preto e branco de Aldo Scavarda, enfim, é tudo aquilo que se espera do cinema – não apenas contar uma história, mas transformar essa história num arrebatamento visual.
 
PS – No ano passado, o Festival de Cannes utilizou uma imagem bastante famosa do filme em seu pôster oficial. O resultado ficou muito bonito.

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