Letras e fotogramas

“A livraria”: Tentando quebrar o círculo de poder com os livros

Por Alysson Oliveira em 01/03/2018
Florence Green é uma viúva que, no final dos anos de 1950, resolve abrir uma livraria numa pequena cidade costeira da Inglaterra, chamada Hardborough. Para isso, compra um velho casarão decrépito e supostamente assombrado, reformando-o um pouco, e abre sua loja. Penelope Fitzgerald compõe a história de sua protagonista e sua aventura de maneira melancólica, com uma prosa econômica (sem ser telegráfica) que remete ao estilo de uma literatura inglesa antiga.
 
É na economia da descrição de personagens e ação que a autora encontra a força de seu A livraria. É como se a história de Florence fosse tão contida que não demandasse muitas palavras, o que não quer dizer que o romance seja contido. Fitzgerald cria um mundo a partir do microcosmos da vila – ou aquilo que Raymond Williams chama de “comunidade cognoscível”.
 
Florence é a estrangeira ali, mudou-se há cerca de uma década, depois da morte do marido, e com experiência em uma livraria grande. Seu propósito, no entanto, bate de frente com uma mulher rica local, Violet Gamart, que pretendia convencer a prefeitura a abrir um Centro de Artes no casarão. O embate entre as duas é discreto e construído sob uma tensão escondida em falsas gentilezas.
 
Publicado originalmente em 1978, A livraria ressoa especialmente hoje, num momento de obscurantismo ideológico e caça às bruxas, quando a cultura tem se tornado cada vez mais alvo de censura. Os habitantes de Hardborough não liam porque não havia uma livraria (ou biblioteca) na cidade, ou porque não liam não tinha uma livraria lá? Florence ousa quebrar esse círculo vicioso que compõe parte da ignorância que garante a manutenção do poder. O preço, no entanto, pode ser alto.
 
O romance foi adaptado para o cinema pela espanhola Isabel Coixet e ganhou diversos prêmios Goya, entre eles, melhor filme, diretor e roteiro adaptado.

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