Letras e fotogramas

Há 50 anos, o inverno eterno chegou para ficar

Por Alysson Oliveira em 04/12/2017
Gelo, a obra-prima da inglesa Anna Kavan (née Helen Emily Woods) completa 50 anos – uma edição comemorativa acaba de ser lançada, pela Penguin americana; no Brasil, o livro está esgotado, mas é possível encontrar em sebos – e se mostra tão atual quanto necessário. Mais do que isso, a autora toca em temas que, nesse meio século, ganharam projeção e se tornaram fundamentais, como catástrofes climáticas e abuso emocional contra mulheres.
 
O cenário de Gelo, como indica o título, é um mundo tomado por neve. Pouco se sabe sobre o cataclismo glacial, mas pouco se sabe como isso se deu – não importa. A trama é narrada por um homem sem nome que se diz soldado e explorador em busca de uma antiga paixão, a quem se refere como “a garota de vidro” com cabelo prateado. Pouco se sabe sobre ela, que é vista apenas como o gélido objeto do desejo dele. Ela é uma personagem vazia, destituída de mais características a não ser aquelas que o narrador atribui a ela.
 
Paredes de gelo estão se fechando, diminuindo cada vez mais o espaço habitável do planeta. O mundo é dominado por guardião poderoso que se torna o rival do narrador pela posse da Garota (ela é tratada assim, embora já seja adulta). Os interesses e desejos dela pouco importam para eles. Na medida em que o romance avança a disputa se torna mais acirrada, assim como os abusos que ela passa a sofrer – primeiro emocionais, e depois sexuais.
 
Gelo é um romance quase surrealista, de uma leitura dolorosa que beira o incompreensível. Não adianta tentar entender, tentar organizar a narrativa, buscar fatos concatenados. A trama é uma sucessão de fragmentos, cristais de gelo, que nem sempre se encaixam, mas uma constante permanece: o achatamento da subjetividade feminina.
 
O escritor Jonathan Lethem, começa sua introdução na edição da Penguin dizendo: “é um livro como a lua é a lua. Só há uma.” E essa é uma característica que diversos comentaristas destacam ao longo desse meio século: Gelo é único. O livro já foi definido, pelo seu editor, Peter Owen, como uma mistura entre Kafka e a série inglesa dos anos de 1960 Os Vingadores, e até isso, por mais bizarro que possa soar, faz sentido. Lethem, novamente, diz que os “primos mais próximos” que ele consegue imaginar para Gelo são o romance Crash (1973), de J. G. Ballard e os filmes Alphaville (1965), de Jean-Luc Godard, e O ano passado em Marienbad (1961), de Alain Resnais. Todos mais ou menos contemporâneos, mas o livro de Kavan traz um diferencial: sua percepção sobre a posição da mulher num mundo dominado por homens.
 
A autora morreu em 1968, pouco depois da publicação do livro, que, em inglês, nunca ficou fora de catálogo. Ela foi viciada em heroína, e seu protagonista/narrador usa drogas que o fazem ter alucinações, envolvendo a Garota, violência e pornografia. Publicado pouco antes da Segunda Onda do Feminismo, Gelo conecta a política global da época – a Guerra Fria – com uma espécie de violência contra a mulher. Tudo isso embalado numa prosa experimental – o que não é pouco. O resultado é um romance estranho, quase incompreensível, mas sedutor em sua força e poder.

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