Letras e fotogramas

Jane Fonda e Robert Redford brilham em "Nossas Noites"

Por Alysson Oliveira em 30/09/2017
Louis Waters prepara o seu jantar, senta-se à mesa, come, lava a louça, liga a televisão, vai fazer as palavras cruzadas do jornal (ops, já tinha feito mais cedo), como faz todas as noites. Em sua primeira cena OUR SOULS AT NIGHT/ NOSSAS NOITES, lançado hoje na Netflix, é capaz de transmitir toda a sensação de uma rotina antiga que é interrompida pela campainha. Quem toca é Addie Moore (Jane Fonda), vizinha da casa da frente há alguns anos, mas eles mal se conhecem.
 
Ela tem um pedido inusitado: será que ele poderia ir à casa dela todas as noites para dormirem juntos? Não tem nada de sexual, nem romântico na proposta. É um arranjo prático. Ambos são viúvos há anos, e a solidão bate cada vez mais forte à noite. Ele estranha, mas acaba aceitando o convite. Nas primeiras visitas, entra pela porta dos fundos, até que ela se recusa a abrir a porta e ele tem que entrar pela frente. Afinal, eles não estão fazendo nada de errado, não têm nada a esconder.
 
Dirigido pelo indiano Ritesh Batra (The Lunchbox), Nossas Noites é um filme exatamente sobre arranjos práticos num momento da vida em que cada minuto conta mais. Dessas noites, com muita conversa antes de se deitar e também na cama, Louis e Addie podem revisitar seus passados, especialmente os erros e traumas que tiraram suas vidas do prumo. É um exercício de perda de pudor – mais do que tirar as roupas um na frente do outro, o que, eventualmente, acabará acontecendo – porque os dois têm feridas profundas e não cicatrizadas, e talvez seja a última chance de ficar em paz consigo mesmos.
 
Jane e Redford repetem a parceria de O Cavaleiro Elétrico (1979), Descalços no Parque (1967) e A Caçada Humana (1966), e suas atuações são o que há de mais bonito nessa adaptação do romance póstumo de Kent Haruf. A dimensão humana que cada um traz ao seu personagem é capaz de superar a direção um tanto opaca de Batra. Mas que, por isso mesmo, dá chance à dupla de brilhar. Há também o belga Matthias Schoenaerts, como filho de Addie, e Judy Greer, como filha de Louis. Mas, dos coadjuvantes, quem se destaca é o pequeno Iain Armitage, como o neto de 7 anos, que é deixado na casa da avó e acaba ajudando a cimentar a relação dela com o vizinho.
 
Sem o elenco inspirado, o filme poderia cair facilmente numa telenovela, mas as delicadas interpretações evitam isso. E, mais do que a química, o prazer de Redford e Jane de contracenar um com o outro é palpável na tela, e capaz de elevar o filme a uma dimensão maior do que o diretor é capaz de alcançar.

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