Letras e fotogramas

Até que a morte do líder os separe: HQ A morte de Stalin

Por Alysson Oliveira em 08/08/2017
 
O escritor Fabien Nury e o ilustrador Thierry Robin foram muitos feliz na escolha do tema para os quadrinhos A MORTE DE STÁLIN (Trad. Paulo Werneck; cores: Robin e Lorien Aureyre), um fato um tanto obscuro da história, envolvendo uma das figuras mais importantes do século passado. Mais do que Stálin em si, o que interessa à dupla são os eixos da história se movendo e as intrigas políticas pessoais que seguem às horas da morte do “pai do povo”.
 
Há, obviamente, um enfoque político na obra dos franceses, mas é pela chave satírica que esse se dá, o que a faz extrapolar no espaço e tempo – indo além da União Soviética de 2 de março de 1953, quando Stálin morreu, e sua morte foi declarada dois dias depois. É nesse período que explodem disputas, erros e uma tragicomédia (com momentos constrangedores) pela disputa do poder.
 
Figuras-chave do episódio, como Nikita Khrushchev, Lavrenty Beria, Geórgiy Malenkov, Nikolai Bulganin, além dos filhos Vasily e Svetlana Stálin, dão o ar da graça nas páginas desenhadas por Robin que carrega nos traços para ressaltar o que há de mais grotesco em cada um – especialmente políticos – com a possibilidade de ascensão ao poder, ou da perda dos privilégios e proteção.
 
Visualmente, a HQ é rica em detalhes, e poderosa em seu enfoque que transita entre o pessoal e uma epopeia de erros. A parte mais bonita e que bem resume todo o livro está no começo do segundo capítulo, no qual a página da esquerda mostra detalhes do corpo de Stálin sendo preparado para o funeral, e na seguinte, o caixão vermelho e luxuoso é mostrado em plongée. O próprio Nury credita a ideia toda a Robin, e define como “uma ironia visual discreta mas [...] esplêndida”. E a cena dá um momento de protagonismo a Stálin, de quem tanto se fala no livro, mas que, obviamente, pouco aparece.
 
Há liberdades ficcionais aqui – especialmente no bem-sacado prólogo, que traz a causa mortis (dentro do universo ficcional da HQ) de Stálin – mas dado o pouco que realmente se sabe (a história oficial, como de qualquer país, é muito maquiada, filtrada), as coisas podem ter acontecido de várias maneiras – até como Nury e Robin imaginaram.

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