Letras e fotogramas

A deusa das pequenas e grandes coisas

Por Alysson Oliveira em 22/06/2017
“Como contar uma história estilhaçada? Lentamente se tornando todo mundo. Não. Lentamente se tornando tudo”, lê, em um diário, um personagem de THE MINISTRY OF UTMOST HAPPINESS (no Brasil, O Ministério da Felicidade Absoluta, a ser lançado na próxima semana). Em seu segundo romance (que foi gestado em 20 anos), a indiana Arundhati Roy segue essa proposição, para contar uma trama fragmentada que vai e volta o tempo e espaço e dá conta de forma poética e incisiva do presente da Índia – e, por tabela, do mundo contemporâneo.
 
O resultado é uma sinfonia caótica de pequenos pedacinhos que montam uma constelação de tramas e personagens de forma abrangente, peculiar e sagaz. Possivelmente, nem há um protagonista aqui, mas uma personagem se destaca logo no início. Ela é Anjum, uma Hijra, pessoas transgêneras e intersexuais cujo destino é dar prazer aos outros sem receber nada em troca. Anjum, cuja vida começou com Aftab, um garoto desejado e amado pelos pais, com 40 e poucos anos vai viver num cemitério, “como uma árvore”, se define, distante do Khwabgah, onde vivem as outras hijras, conhecidas como o 3o gênero, donas de um papel importante – apesar de ainda marginalizadas – na cultura indiana. Porém, sua morada no cemitério não dura muito, até que ela constrói uma pequena casa ao lado, e, aos poucos novos cômodos, e recebe pessoas excluídas e renegadas, por um aluguel baixo. O local ganha o nome de Jannat (paraíso), e sua posição dentro da narrativa acaba fornecendo o título ao romance.
 
Outra personagem feminina, o outro polo da trama, é a ilustradora Tilo, que, em Kashmir (Caxemira), reencontra um antigo amante, Musa, que perdeu a mulher e a filha numa rebelião perdeu a mulher e a filha pequena. Na região, ao norte do subcontinente, divida entre Índia e Paquistão, é palco de constantes conflitos desde o fim da ocupação britânica. Em seu segmento dentro do romance, Tilo irá se deparar com os horrores da ocupação indiana, especialmente as atrocidades do exército.
 
O primeiro romance da autora, The God of The Small Things, rendeu-lhe o Booker Prize, em 1997, e acusação de obscenidade no estado onde ela nasceu, Kerala, além da reputação como uma romancista séria, entre outras coisas. O livro lidou de forma franca com sexualidade e política – muitas vezes, interconectando os temas. Seu estilo beira uma espécie de selvageria meditada, com idas e vindas no tempo, e personagens marcantes.
 
The ministry of utmost happiness não é muito diferente nesse sentido, mas, de certa forma, parece mais visceral, menos ponderado em sua forma do que o anterior. Seu retrato de duas décadas de história da Índia parece menos amarrados, mais solto, e mais direto quando se trata de abordar a política no país. Ao recusar uma narrativa clássica, sequencial, a autora parece buscar ciclos de violência e desejo que se formam de maneira não linear, e devastam a vida de pessoas em determinados períodos, com altos e baixos.
 
Ao contrário de The God of the small things, The ministry of utmost happiness não é um romance que seduz rápida e facilmente, é um livro que pede atenção, concentração e manda seguir em frente mesmo quando alguma coisa não faça muito sentido. A parte político-histórica, para quem não está familiarizado com o tema em relação à Índia, é bastante árdua e, às vezes, quase desanimadora, mas Roy tem diversas recompensas para quem não abandonar o livro. O seu panorama de hijras, mulheres e homens é vasto e a investigação da alma humana recompensadora.
 
O transito entre pequenas tramas pessoais e grandes movimentos históricos ajuda na compreensão de um todo – porque as duas coisas estão conectadas, e disso suas personagens jamais poderão escapar, como bem diz uma hijra a Anjum: “Os motins estão dentro de nós. A guerra está dentro de nós. Indo-Paquistanês está dentro de nós. Isso nunca vai se acalmar. Não pode”. Como boa investigadora de seres humanos e seus desejos e conflitos, Roy sabe somos frutos de um espaço e um tempo, e disso, não temos como fugir.

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