Letras e fotogramas

Laços de afeto manchados de sangue

Por Alysson Oliveira em 21/06/2017

A coletânea de contos TODO NAUFRÁGIO É TAMBÉM UM LUGAR DE CHEGADA, de Marco Severo, não perde tempo em dizer a que veio, e logo na primeira história, “Selvagem”, em cerca de 4 páginas, o tom será estabelecido, algo entre o terno e o macabro, com gotas de sangue – às vezes jorros, às vezes estes são metafóricos também.
 
Ao longo de 20 contos, o autor compõe um panorama do presente doentio que, disfarçado, se mostra feliz e saudável. O protagonista-narrador de “Na casa do cordeiro, o lobo anfitrião”, o texto mais longo da coletânea, parece, à primeira vista, se um sujeito legal e solidário. “Desde que consegui minha carteira de motorista que dou carona nas estradas quando viajo”. O que também causa apreensão ao leito. Pobre personagem! Aos poucos, numa atmosfera e construção que lembra Rubem Fonseca, o texto regride no passado dessa figura, e revela algo assustador.
 
Muitos deles esmiúçam relações entre pais/mãe e filhos/filhas com consequências trágicas (umas maiores, outras menores) para ambos lados da relação – um pai que espanca o filho, outro pai que não dá atenção ao menino – aparentemente, ainda não “‘despertara’ para a paternidade, mas que um dia iria receber o ‘chamado’ inevitável da natureza”. Há também humor. Nasce o filho de um narrador: “No dia seguinte, Olavo Pimentel Luiz de Carvalho vinha ao mundo. [E], por mim, jamais seria médico, nenhuma dessas profissões que enchem o [sujeito] de grana, mas um grande filósofo. Eu só queria isso”.
 
A leitura continua dos textos causa um estranho efeito de uma certa catatonia pelo efeito anestesiador da violência – quase sempre a emocional aqui é tão forte, ou ainda mais forte, do que a física. O efeito acumulativo culmina, é claro, no último texto da coletânea: “A contagem dos dias”, o mais triste de todos.

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