Letras e fotogramas

Narciso Negro, ou Pós-Colonialsmo em tecnicolor

Por Alysson Oliveira em 02/06/2017

 
 
O ano de 1947 marca a independência da Índia e também o lançamento de NARCISO NEGRO, da dupla Michael Powell e Emeric Pressburger, baseado num romance de 1939, de Rumer Godden. De certa forma, o filme não deixa de ser um réquiem para o projeto colonial britânico que se esmaecia na época da produção do longa – filmado inteiramente, diga-se, em estúdio na Inglaterra, e com elenco majoritariamente ocidental, até para personagens indianos, como é o caso da jovem rebelde vivida por Jean Simmons, cujo rosto é levemente bronzeado com uma maquiagem.
 
No filme, cujo cenário é uma região isolada do Himalaia, próximo a Darjeeling, tem como protagonista um grupo de freiras que se mudam para uma antiga construção conhecida como O Castelo – embora de castelo não tenha nada. Elas irão ensinar às crianças locais, com ajuda de uma criança-tradutora. Quem cuida de tudo ali é a Madre Superiora Clodagh (Deborah Kerr), com ajuda de outras três religiosas, sendo que uma quarta passa o tempo em seu quarto, pois está doente. Trata-se da irmã Ruth (Kathleen Byron), cujo estado emocional dará margem a boa parte dos psicologismos baratos que já se usou para interpretar o filme.
 
Uma versão pop de Freud dá conta da repressão do desejo sexual das freiras isoladas numa região insólita e cercada por pessoas com a sexualidade à flor da pele – materializada especialmente na figura do inglês Dean (David Farrar), cujos poucos trajes são alvo de olhares lascivos e doentios da adoentada irmã Ruth. É muito fácil cair na leitura de interpretar as personagens femininas como histéricas, destituindo-as e o filme de uma interpretação social – “são apenas mulheres com o desejo reprimido”. Clodagh, por exemplo, é um mistério – embora alguns flashbacks a retratem como um espírito livre e noiva de um rapaz na juventude. Ela também não era de uma família pobre.
 
Uma das referencias pictóricas da fotografia, assinada por Jack Cardiff, vem dos espaços interiores de Vermeer, que materializam o claustro e os sentimentos reprimidos em tons escuros de marrom, contraponto ao azul, verde e branco do exterior e da natureza. O “castelo” no alto de uma colina impõe austeridade e confere algum tipo de poder, mesmo que involuntariamente, às religiosas.
 
A representação dos nativos, por sua vez. anda sobre um fio tênue entre a complexidade e o clichê, pendendo, em parte do tempo, para o segundo – especialmente com a “brownface” de Simmons.  Há também o jovem general (Sabu) que procura a escola das religiosas, porque quer aprender línguas, matemática etc. Ele é mais velho do que os alunos regulares, mas acaba aceito, e há um discreto romance entre ele e a garota rebelde. Pode o subalterno falar em Narciso Negro? Pode, mas desde que seja num inglês quase impecável.
 
Mas a dupla Powel & Pressburger tem a melhor das intenções, e esse é um filme sobre o fim de uma ideia, é a despedida melancólica do projeto de colonização inglesa para a Índia. A cena final, com a partida das religiosas e a chegada das Monções trazendo uma chuva que a tudo lava, simbolicamente pode representar a vitória do povo indiano – nem que seja temporária.
 
A bela embalagem em tecnicolor e as chuvas parecem uma celebração à resiliência dos indianos que surgem como uma força da natureza diante da opressão imposta pelo ocidente – especialmente aquela simbolizada na religião. O que Narciso Negro tenha a dizer sobre a região do Himalaia, a Índia, talvez não seja muito (filmado inteiramente em estúdio na Inglaterra, com paisagens pintadas), mas há algo inerente à representação do colonizado que o olhar repleto de boas intenções dos diretores não superam os vícios. Ainda assim, é um olhar de tirar o fôlego.

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