Letras e fotogramas

Com War Machine (Netflix), David Michôd erra na sátira de guerra

Por Alysson Oliveira em 29/05/2017

Mais cedo ou mais tarde isso ia acontecer. Depois de dois grandes filmes, O Reino Animal e The Roover – A Caçada, o australiano David Michôd iria errar a mão e fazer algo totalmente equivocado – talvez ninguém imaginou que fosse tão cedo, mas seu terceiro longa é um erro do começo ao fim. Uma comédia satírica que diz o óbvio com alguns anos de atraso, e depois que muita gente já disse o mesmo de maneira mais contundente: “A guerra é um inferno, povoada por loucos” – Kubrick já disse e mostrou isso mais de 50 anos atrás em Dr Strangelove.
 
Baseado num livro de um jornalista da Rolling Stone, Michael Hastings, The operators, o filme tem uma crise de identidade que não é capaz de resolver ao longo de suas pouco mais de duas horas. Um de seus maiores problemas é seu astro e produtor Brad Pitt. Sua interpretação é tão forçada quanto seu cabelo tingido, suas sobrancelhas constantemente arqueadas, seu queixo simuladamente protuberante, sua postura empombada e sua voz falsamente cavernosa. A bem da verdade, se ele fosse menos exagerado na caricatura – todo mundo está num tom mais realista – o filme seria mais suportável, apesar de óbvio.
 
Pitt é Glen McMahon, uma interpretação ficcional do comandante  Stanley McChrystal, que serviu no Afeganistão, e cuja carreira acabou graças a um perfil que Hastings fez para Rolling Stone (http://www.rollingstone.com/politics/news/the-runaway-general-20100622), revelando-o tal como é um egocêntrico megalomaníaco.
 
Produzido e exibido na Netflix, War Machine é caricato do começo ao fim, com uma trilha sonora intrusiva de Nick Cave. Ao retratar a Era Obama, o filme já perde o bonde da história e fica coberto de uma poeira deixada por outros filmes sobre o mesmo período e época – desde Guerra ao Terror até Os homens que encaravam cabras.
 
Ben Kingsley interpreta uma versão do presidente afegão, Hamid Karzai, e parece estar se divertindo absurdamente sem se esforçar muito. Enquanto Tilda Swinton faz uma política alemã numa única cena – aparentemente todas as atrizes alemãs estavam ocupadas demais para fazer essa ponta. Metade do filme é narrada pela voz do jornalista (Scoot McNary), o que faz parecer um trailer alongado. Quando, finalmente, a narrativa “começa” Michôd, que também assina o roteiro, já saturou o filme de informação, personagens e inutilidades.
 
Se por um lado as questões geopolíticas e das intervenções norte-americanas pelo mundo sempre são relevantes e a crítica a elas necessárias, por outro War Machine não encontra um equilíbrio em sua forma e seu humor tentando retratar a queda McMahon, em sua caracterização bizarra. Faltou talvez conhecer o romance já clássico Catch 22, de Joseph Heller, para se entender o que é uma grande sátira de guerra, com humor e horror se confundindo. O resultado como crítica sócio-histórica é irrelevante; como comédia, soporífera.

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