Letras e fotogramas

Precisamos falar sobre Elizabeth Strout

Por Alysson Oliveira em 28/04/2017

Há muito pouco de Elizabeth Strout publicado no Brasil – infelizmente. Apenas seu penúltimo romance MY NAME IS LUCY BARTON (aqui, Meu nome é Lucy Barton, com tradução de Sara Grünhagen), o que é uma pena, pois os leitores brasileiros não estão tendo acesso a uma das maiores escritoras americanas da atualidade. Nem OLIVE KITTERIDGE, ganhador do Pulizer de Ficção em 2009 e base de uma série estrelada por Frances McDormand, ganhou uma tradução no Brasil.

A obra da escritora tem ao centro personagens femininas e seus dilemas cotidianos. Há algo em Strout que lembra Alice Munro, embora o cenário seja outro, mas a delicadeza e precisão com que constróis perfis e tramas a partir destes a americana tem em comum com a canadense. O romance Lucy Barton é algo raro no gênero, sempre tão preocupado com a formação de personagens masculinos. Aqui temos um romance de formação que recusa o rótulo e traz como protagonista uma mulher.

Narrada pela própria Lucy que tem a vantagem de olhar para o passado e revisitar episódios de sua vida, a trama se passa durante cinco noites nos anos de 1980, quando ela estava num hospital em Nova York, onde tirou o apêndice, mas ainda convalesce de uma doença que os médicos não conseguem diagnosticar. Inesperadamente sua mãe, com quem não fala há anos, aparece no hospital, e isso traz à tona memórias da infância.

Os anos de formação da personagem são contados de forma quase factual. Strout não deixa se levar por sentimentalismos, sua precisão ajuda a dimensionalizar Lucy, e sua infância solitária, que, conforme ela confidencia, a levaram a se tornar uma escritora. E isso persiste até essa vida adulta, na qual é divorciada e mãe de duas filhas pequenas. E essa doença misteriosa que a mantém por meses no hospital? Poderia ser algo psicossomático que se cura com a presença da mãe e a reconciliação das duas.

Apesar da mãe ser faladora, cheia de histórias sobre pessoas que as duas conhecem, ou conheciam, é nos silêncios que elas se entendem. É quando aquilo que não precisa ser dito emerge que elas podem olhar olhos nos olhos (nem que seja simbolicamente), ver a verdade de uma na outra. Strout parece conhecer isso muito bem. Suas personagens são repletas de nuances, assim como os laços que as une. É também um prazer encontrar um romance sobre a formação emocional e o amadurecimento de uma mulher – atualmente, Elena Ferrante, com seu quarteto napolitano é outra que tem feito isso – num gênero tão dominado pelos ritos de passagem de garotos para homens.


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