Letras e fotogramas

Persistência e Resistência em

Por Alysson Oliveira em 26/04/2017
Em QUARTO DE DESPEJO – DIÁRIO DE UMA FAVELADA, de Carolina Maria de Jesus, existe uma força impressionante que vem desde a primeira entrada no diário, em 15 de julho de 1955: “[...] o custo dos generos alimenticios nos impede a realização de nossos desejos. Atualmente somos escravos do custo de vida”. É exatamente essa dinâmica entre o preço da vida versus os sonhos que conduz o livro.
 
Publicado em 1960, depois de descoberto pelo jornalista Audálio Dantas, o diário é um registro visceral, em primeira pessoa que estava no centro do furacão, ou seja a vida na favela, o que vemos aqui é o seu cotidiano – acordar cedo para buscar água, catar papel, metais, para depois vende-los para comprar as refeições do dia, cuidar dos filhos etc – contado se adorno narrativo para criar efeitos. O efeito, se é que há algum, é, então, inerente à experiência da vida de Carolina, seus filhos, vizinhos e ambiente onde moram e transitam.
 
A favela surge como um grande personagem que engloba e aprisiona a todos – nascem daí rivalidades, solidariedades e até amores. A prosa crua, seca, dura com uma gramática próxima da linguagem oral não tem adornos, mas dela também uma poesia, exatamente da capacidade de Carolina encontrar, nem que seja involuntariamente, alguma beleza em meio às dificuldades de sua vida e daqueles que a cercam. Em 14 de setembro de 1959 escreve: “Hoje é o dia da pascoa de Moysés. O Deus dos judeus. Que libertou os judeus até hoje. O preto é perseguido porque sua pele é da cor da noite. E o judeu porque é inteligente. Moysés quando via os judeus descalços e rotos orava pedindo a Deus para dar-lhe conforto e riquesa. É por isso que os judeus quase todos são ricos.
Já nós os pretos não tivemos um profeta para orar por nós.”
 
A política também emerge de forma cândida e diretamente ligada à vida de Carolina. “A democracia está perdendo seus adeptos. No nosso paiz tudo está enfraquecendo. O dinheiro é fraco. A democracia é fraca e os políticos fraquíssimos. E tudo o que está fraco um dia morre”. Escreveu isso em 1955, mas é uma realidade que até hoje persiste.
 
Persistência é uma das palavras-chave em Quarto de Despejo. Persistem temas e pontos ao longo do diário: a fome e o trabalho são duas constantes, sempre permeados por dificuldades. A estrutura, como pode se perceber, não mudou muito nesses mais de 60 anos desde a escrita até o presente. A outra palavra-chave é resistência. Carolina, seus filhos, seus vizinhos lutam contra as dificuldades, resistem conforme podem, e a resistência dela é coma palavra: “Os políticos sabem que sou poetisa. E que o poeta enfrenta até a morte quando vê o seu povo oprimido”. Palavra que resiste e persiste.

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