Letras e fotogramas

T2 Trainspotting: No lust, no life

Por Alysson Oliveira em 22/03/2017

Tal qual o filme original, T2 TRAINSPOTTING também começa com o protagonista, Renton (Ewan McGregor), correndo, mas, ao contrário de lá, uma corrida frenética pelas ruas de Edimburgo, aqui, é numa esteira numa academia em Amsterdã – uma corrida, enfim, que não leva a lugar nenhum. Não há mais “lust for life”, e a trilha sonora melancólica que segue na abertura – apenas alguns acordes de Perfect Day – indica que os tempos mudaram. E como não? São mais de 20 anos de diferença, e muita água passou por debaixo da ponte histórica-social da Europa.

Mas para que haja filme, é claro, Renton precisa voltar ao seu país, encarar seus fantasmas do passado – especialmente o trio de amigos que ele traiu no final do primeiro filme – e seguir em frente. Em 1996, a globalização era uma promessa – falsa muitos sabiam, mas não custava ter esperança – de um mundo e uma vida melhor. Londres era logo ali do lado, e estava repleta de oportunidades. A segunda década do século XXI escancarou a falácia daquele processo, o Leste europeu invadiu o outro lado do continente, o neoliberalismo ganhou mais força e seu trator passou por cima de tudo e todos. Não esqueçamos o Brexit também.

Danny Boyle – trabalhando com um roteiro de John Hodge (o mesmo roteirista do original) a partir dos romances Trainspotting e Porno, de Irvine Welsh (que faz uma ponta, novamente, como receptor de mercadoria roubada – sabe que não existe espaço para releitura dos personagens e situações, mas para um mergulho no que eles transformaram desde aquela época.

E o passado vem cobrar sua conta. O quarteto está pagando, cada um ao seu modo, por todos os excessos e erros da juventude excessiva de 20 anos atrás. Mas não se trata de um filme moralista que aponta dedos, pelo contrário, é um filme até carinhoso com seus personagens, mas sem os eximir de suas escolhas. Fazemos escolhas certas ou erradas, e o presente e o futuro são o resultado delas, parece dizer T2. Simon (Jonny Lee Miller) é um cafetão que filma e chantageia os clientes de sua “funcionaria”, Veronika (Anjela Nedyalkova), mas pretende abrir um bordel no antigo pub de sua tia. Para isso, contará com dinheiro público, alegando que criará (sem entrar em detalhes) um espaço de socialização para turistas (o que, vá lá, não deixa de ser verdade) na região portuária da cidade, que está em processo de revitalização.

Begbie (Robert Carlyle), que está preso, desde que foi traído por Renton, que ficou com o dinheiro da venda das drogas, mas foge da cadeia. E Spud (Ewen Bremner), um tanto lento nas ideias, mas dono de um bom coração, quer tomar medidas drásticas porque não se considera apto a cuidar da mulher e do filho pequeno. O reencontro inesperado e inevitável dos quatro coloca o presente e o passado em nova perspectiva.

Os floreios visuais a que Boyle sempre foi dado são usados de maneira funcional e traduzem – como no primeiro – a desestabilidade psíquica e emocional dos personagens, e, por isso, cabem bem ao longo do filme. Não é intenção do diretor fazer uma obra de realismo social intenso – deixemos isso pra Ken Loach, Andrea Arnold, Mike Leigh e afins – mas há algo disso sorrateiramente no filme.

Seus personagens são de origem “working class”, que tentam se ascender socialmente, ainda que por vias tortas – prostituição, tráfico. O passado, repleto de possibilidades, esperança e até vida (havia lust for life), hoje é uma prisão de classe média com roupas caras – exceto para Spud -, geringonças tecnológicas – novamente exceto para Spud – e afins. A economia prometia um crescimento, uma melhora; hoje, sabemos no que nisso tudo deu. Ainda assim, Boyle/Hodge/Welsh encontram uma nota de esperança para concluir o filme de maneira épica, sem, ao mesmo tempo, abrir mão do tom alucinante que Trainspotting sempre foi.


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