Letras e fotogramas

Um silêncio que grita: A Resistência, de Julian Fuks

Por Alysson Oliveira em 01/12/2016
 
 
 
Há uma cena em A RESISTÊNCIA, do paulistano Julián Fuks, que é bastante reveladora, e acontece ainda no começo da narrativa, quando a família está no carro, e o narrador-protagonista e sua irmã, ainda crianças, entram numa disputa tipicamente infantil, e termina com ele dizendo que não é irmão dela. “[Você] não pode, você é meu irmão e vai ser meu irmão para sempre. Eu insisto, eu não quero, você não é a minha irmã e pronto, está decidido. Eu decidi.” A história vira uma anedota familiar, contada por anos. O que, naquele momento, nenhuma das quatro pessoas (os irmãos e seus pais) no carro parece se dar conta é que a outra quinta pessoa é o filho adotivo, que realmente não é irmão de sangue.
 
Pouco antes disso, o autor comenta: “Que força tem o silêncio quando se estende muito além”. E é certeiramente sobre nisso isso que será construído o livro: sobre os silêncios que são mais ensurdecedores do que palavras. Por muito tempo, não vamos ouvir a voz desse irmão adotivo, um personagem enigmático, mediado pelo olhar do protagonista. Ninguém tem nome, todos aqui têm funções familiares, o pai, a irmã etc.
 
Fuks trabalha a formação da identidade a partir da constituição familiar, mas também o passado histórico. Os pais, um casal de psiquiatras, vieram para São Paulo da Argentina, na época da ditadura, trazendo consigo um filho que adotaram assim que nasceu. Não sabemos – nem o narrador sabe – muito sobre a criança, e a história oficial é frágil demais – uma jovem mãe solteira de família católica italiana – mas pode ser verdade ou não. Tanto que a certa altura o narrador se questiona sobre as reais origens de seu irmão.
 
De certa maneira, A resistência lembra O Filho Eterno, de Cristóvão Tezza, um livro que combina diversos gêneros e criado a partir da experiência pessoal do autor, mas aqui as histórias nacionais são mais presentes – tanto do Brasil quanto da Argentina. Os pais eram militantes, e vieram passar um tempo aqui, e acabaram ficando. Lá, no entanto, no presente, as cicatrizes são mais gritantes, e a principal delas no livro são as Mães da Praça de Maio.
 
Não é à toa que a narrativa seja permeada por tantas perguntas. É um livro a procura de respostas, e que raramente as encontra. Talvez isso, simbolicamente, seja um reflexo da experiência histórica dos dois países reverberada nos dois irmãos – um argentino e um brasileiro, e dois países tão próximos, com trajetórias um tanto parecidas e maneiras distintas de as encarar. Talvez se o narrador brasileiro olhasse nos olhos do passado do seu país teria a mesma necessidade de, por um tempo, ficar calado, de se fechar no quarto como o seu irmão.

Deixe seu comentário:

Imagem de segurança