Letras e fotogramas

Post morten postmodern: O novo romance de Don DeLillo

Por Alysson Oliveira em 07/09/2016
 
 
Nada mais importante para Don DeLillo do que vivermos na era da Pós-Modernidade. O esvaziamento da História enquanto narrativa (Libra, Mao II, White Noise, Underworld, Falling Man), colapso financeiro (Cosmopolis), políticas de identidade (The Body Artist) etc. Em seu mais novo romance, ZERO K, o nosso presente é investigado tendo a morte (e a luta contra sua inevitabilidade) como o mediador.
 
Em um prédio no meio do nada, no Oriente Médio, onde pacientes terminais são congelados a zero Kelvin para no futuro, quando descoberta a cura para sua doença, serem descongelados, uma espécie de guru diz ao protagonista-narrador: “Aqueles de nós que estão aqui não pertencem a nenhum outro lugar. Nós caímos fora da história. Abandonamos quem somos e onde estávamos para estar aqui”. O que seria o “cair fora da história” nesse mundo de gente rica que pode pagar o congelamento?
 
Ross Lockhart, pai do personagem central, pagará o congelamento de sua jovem segunda esposa, a arqueóloga Artis Martineau. Mas o que ele mesmo fará sem ela ao seu lado?, pergunta ao filho, Jeffrey. É nesse mundo incompleto que vivem os personagens desse romance.
 
Não é um mundo totalmente descabido, nem exagerado. No deserto do Arizona, existe a Alcor Life Extension Foundation, uma espécie de ONG, que mantém, no momento, quase 200 corpos – entre humanos e animais – em criopreservação, a espera de uma cura para a causa mortis, e assim os despertar e resolver o problema, por assim dizer. A questão central, então, que DeLillo coloca aqui é qual o preço de trapacear na ordem natural das coisas.
 
Num segmento central no romance, Jeffrey está em Nova York com sua namorada e o filho adolescente ucraniano que ela adotou. Aqui temos mais um momento tipicamente DeLilliano quando o garoto trava, em sua língua, um diálogo tenso com o motorista do táxi que os leva. E nessa parte da narrativa, dentro do veículo, está um resumo brilhante de tudo que pauta o nosso mundo:  dinheiro, globalização, relações familiares, segurança em aeroporto e excesso de informação.
 
Mais do que medo da morte, os personagens aqui têm medo da vida. O apocalipse, então, seria um alívio, pois morrendo todo mundo junto é menos penoso do que um de cada vez. ZERO K, um dos maiores romances do autor, explora as conexões entre vida e morte, e aquilo que faz de nós humanos no momento em que estamos – especialmente a linguagem, que nos define, aproxima e repele.

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