Letras e fotogramas

Uma vida pequena, de Hanya Yanagihara

Por Alysson Oliveira em 04/04/2016

Não há dúvida de que Hanya Yanagihara sabe escrever. Sabe escrever até demais – mas seu editor parece não saber editar. Nada justifica as mais de 800 páginas de seu segundo romance A LITTLE LIFE – que título mais irônico. Centrado em torno de um grupo de 4 amigos em Nova York, por algumas décadas, seu começo indica algo à la The Group, de Mary McCarthy. E as (mais ou menos) 150 primeiras páginas são bastante promissoras e muito boas, indicado que virá um retrato panorâmico ou algo assim.
 
Estranhamente, pouco depois, a autora deixa tudo isso de lado, para se concentrar em Jude St. Francis – realmente, a pessoa mais problemática do livro, deixando de lado os demais, eventualmente contando o que aconteceu com eles a mero título de ilustração. No começo Hanya parece estar querendo lidar com políticas de identidades, seus avanços e contenções. JB é negro, filho de uma imigrante haitiana e tenta obter sucesso com artista plástico. Malcolm é o mais rico (muito mais rico, podre de rico), filho de pai branco e mãe afro-americana, tenta se encontrar como negro – embora enfrente problemas por não ser “negro o suficiente” para JB. Williem é bonito, mas pobre, e tenta ser ator. Amável e educado, é querido por todos, e tem um passado conturbado com um irmão com problemas mentais e país pouco amáveis – todos mortos agora. Aí sobra Jude. Jude é atrativo demais enquanto personagem, e seu passado doloroso é revelado pouco a pouco, o que explica seu inúmeros problemas físicos e emocionais.
 
Não é difícil entender como Jude sequestra a narrativa para si, mas não é de se concordar com a autora de abrir mão de tudo o que parecia construir para se dedicar apenas a ele, cuja história de dor e tentativas de superação é tão forte que beira o exagero. O sofrimento de Jude se torna o fetiche-mor do livro, continua-se a ler para saber o quanto mais ele sofreu, e ainda irá sofrer, porque o sofrimento não para.
 
A LITTLE LIFE, cuja tradução está prometida pela Record para ainda o primeiro semestre de 2016, é um catálogo do sofrimento humano cuja conclusão da trama dá para se notar a quilômetros de distancia. Garth Greenwell escreveu um ensaio (http://goo.gl/YI1gDz) no qual compara a autora a Almodóvar e Proust, pois, segundo ele, ela, como os outros dois, está ligada à tradição estética de modos chamados queer, como melodrama, ficção sentimentalista e ópera. Ele identifica os laços entre os amigos como aqueles que uniram a comunidade LGBT como uma resposta à crise da AIDS. Estes comentários são o que de melhor pode se dizer sobre o livro – embora, é claro, o ensaísta está exagerando muito.
O que ele não percebe – mas alguns outros comentaristas também perceberam – é a ausência de matéria, ou momento, que seja, histórica dentro da narrativa. Passam-se mais de três décadas, num tempo inexistente, onde não há crises econômicas ou políticas, não há 11 de setembro, não há movimento da história. Pelo seu comportamento, os personagens de Hanya parecem habitar outro planeta – em um dado momento, um deles compra um manual de sexo para descobrir como dar mais prazer ao parceiro. Sério, na da internet alguém comprando (se é que alguém vende) manual de sexo?!
 
Mas a certa altura A LITTLE LIFE se torna refém de sua própria empreitada. É preciso fazer seu protagonista sofrer – mais, mais e MAIS!! – porque é a isso que o livro propõe: um retrato da crueldade do que o ser humano é capaz. Nessa empreitada, acaba arrancando até algumas lágrimas, mas é a custo muito alto: se tornando um livro inócuo.

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