Letras e fotogramas

Fecham-se os olhos que desvendaram com a simplicidade a vida e o amor

Por Alysson Oliveira em 11/01/2010

 
 
Como todo mundo, fui pego de surpresa com a morte do cineasta francês Eric Rohmer. Desde os anos de 1990 eu ouvia falar dele, e lia sobre seus filmes, mas só fui poder vê-los quando o Estação os lançou no finado Top Cine, em São Paulo. Aliás, parece que fizeram tanto sucesso que num período de uns cinco anos, todos chegaram ao cinema – mesmo com um atraso de algumas décadas. O melhor é que praticamente tudo está disponível em DVD.
 
O meu preferido sempre foi Minha noite com ela – mas, há pouco tempo, revendo O Raio Verde (foto), acho que o posto de Rohmer que mais adoro tem que ser dividido entre os dois. Nem entrarei no mérito dos longas das Quatro Estações – porque aí o posto terá de ser dividido entre 6 filmes...
 
O que eu mais gosto nos filmes dele é como tudo é muito simples, como os personagens são tão reais, tão próximos de gente-como-a-gente. E estão em busca de coisas simples – a maioria deles busca alguém para amar e ser amado. Em seus filmes, Rohmer trabalha com miniaturas e por meio delas consegue captar diversas nuances do ser humano. Isso me lembra muito a literatura de Jane Austen, autora de livros como Persuasão e Orgulho e Preconceito. Os personagens dos dois, Rohmer e Austen, são como pequenas bonequinhas de porcelana que eles pintam a mão, cuidando de cada mínimo detalhe e por isso são tão atemporais e poderiam viver em qualquer lugar do mundo.
 
Não é raro ter momentos em que me lembro de Delphine – e até me identifico com ela- a protagonista indecisa de O Raio Verde. Ela nunca sabe muito bem o que quer, e vai de um lado para o outro em busca daquilo que nem sabe o que é. O que ela parece não querer é ser uma conformista, ficar parada. Mas ela é muito indecisa, muito volátil, muda de ideia a toda hora. Muita gente – mas muita mesmo – vai a chamar de chata. Eu a chamo de humana, de real, de palpável. A personagem foi interpretada por Marie Rivière – constante colaboradora do cineasta que nesse filme, especialmente, é creditada como corroteirista.
 
Certamente vou sentir falta dos filmes desse grande cineasta. Há uns três anos, a Cinemateca, em São Paulo, fez uma retrospectiva bastante abrangente – praticamente tudo existe em película, e foram lançados em cinema. Quem sabe alguém não se anima a fazer um novo ciclo que, desta vez, inclua Les amours d'Astrée et de Céladon, inédito em circuito no Brasil. Em tempo, coincidentemente, o cinema HSBC Belas Artes (SP), promove um ciclo com os filmes das Quatro Estações no mês de janeiro. Na semana passada foi Conto de Verão. Agora, em cartaz Conto de Outono, até a próxima quinta. Depois vem Conto de Inverno (de 15 a 21 de janeiro) e Conto de Primavera (de 22 a 28). Mais informações, no e-email cineclubehsbc@cinemabelasartes.com.br

Deixe seu comentário:

Imagem de segurança