Letras e fotogramas

Retrospectiva 2009 – Meus três livros brasileiros favoritos do ano

Por Alysson Oliveira em 17/12/2009

Nem preciso pensar duas vezes para escolher o melhor livro brasileiro lançado esse ano: O filho da mãe, Bernardo Carvalho. Segundo livro da série “Amores Expressos” (inaugurada no ano passado com o fraco Cordilheira, de Daniel Galera), o romance é uma narrativa intrincada que fala de guerra, maternidade e amor. Para o escrever, como parte do projeto, o autor passo um mês em São Petersburgo.  Mas a viagem jamais é o que guia o romance – pelo contrário.
 
O estranhamento do estrangeiro é uma constante na obra de Carvalho, e aqui ganhar contornos ainda mais profundos do que em seus melhores romances, como Mongólia e Nove Noites. Sem dúvida esse é um daqueles livros que melhor combinam forma e conteúdo. Variando os focos narrativos e os cenários, o autor produziu um romance denso e profundo, uma meditação sobre o amor materno, sobre a guerra e o preço da paz e, sobretudo, porque o ser humano teme tanto a melancolia e a solidão. Um grande livro.
 
Outro livro com variações de narradores e sensacional é Galiéia, de Ronaldo Correia de Brito. Lançado no final do ano passado, o romance é um mergulho na história de uma família, cheia de recordações especialmente algumas não muito boas. A narrativa aqui é bastante cinematográfica, cheia de flashbacks, histórias paralelas e personagens excêntricos. O mais interessante é a forma como o autor captura tudo isso, sem transformar o livro em um nordeste exótico para o sudeste apreciar. A força de Galiléia está exatamente nisso, em encarar com naturalidade os seus estranhamentos.
 
Por fim, outro bom romance nacional lançado nesse ano é O livro dos mandarins, de Ricardo Lísias. Esse é um olhar irônico e cheio de humor negro sobre o mundo hobbesiano das grandes corporações – aqui é um banco, mas poderia ser qualquer empresa. O protagonista é Paulo, e quase todos os personagens – exceto o vilão – se chamam Paulo, ou variações desse nome, Paula, Pauling, Paulson etc. Na verdade, como se percebe, ninguém é um ser humano, mas a somatória de rótulos e expectativas que projetam em você. Numa era de subornos, puxadas de tapete e afins – nada mais atual do que a literatura de Lísias.
 
A menção honrosa fica por conta da Companhia das Letras começar a relançar a obra completa de Lygia Fagundes Telles. Uma literatura tão apaixonante quanto inteligente que nunca poderá sumir das livrarias, bibliotecas ou estantes caseiras.

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