Letras e fotogramas

O discreto charme de “Eurídice Gusmão”

Por Alysson Oliveira em 20/02/2019
Na apresentação de seu romance A vida invisível de Eurídice Gusmão, a escritora Martha Batalha alerta: “Eurídice e Guida [as protagonistas] foram baseadas na vida das minhas, e das suas avós”. Ué, ela nos conhece para saber isso? Pois é, não nos conhece, mas conhece muito bem o que é ser mulher no Brasil, e por isso pode fazer tal afirmação com tanta propriedade – certas coisas não mudam, ou mudam pouco, ou mudam pouco e lentamente. O livro, publicado em 2016, é exatamente sobre isso: as permanências do que é ser mulher no Brasil.
 
Há um recorte claro de classe: média carioca, mas que, de certa forma, certos pontos, independem da classe (os comentários sobre a empregada Das Dores são pontuais, mas reveladores) ou da raça – talvez nem da nacionalidade. Por isso A vida invisível de Eurídice Gusmão é um livro que encontrou certo sucesso também fora do Brasil. Aqui, além de tudo, Karim Aïnouz (O céu de Suely) prepara um longa inspirado no romance.
 
Batalha escreve com leveza sobre um assunto espinhoso, o que não quer dizer que seu livro seja superficial. É um humor muito peculiar, e altamente irônico e não destituído de certo cinismo. Como bem se sabe: Rindo castigamos os costumes. Eurídice nos é apresentada como uma mulher brilhante. “Se lhe dessem cálculos elaborados ela projetaria pontes”, comenta o (ou a) narrador(a), cujos comentários tem um quê de Machado de Assis. Mas a personagem vive no Rio de Janeiro dos anos de 1950, e “o que lhe deram foram cuecas sujas, que Eurídice lavou muito rápido e muito bem.” Depois disso se senta no sofá, e olha as unhas “pensando no que deveria pensar”. De certa forma, esse não deixa de ser um romance de formação, do despertar de uma jovem mulher sobre sua condição, e a tentativa de fugir dela – sempre silenciada, ou para combinar com o título, invisibilizada.
 
Eurídice tem um marido com quem se dá relativamente bem. Ele, como ela, não deixa estar ligado a um papel social, um momento histórico – não lhe resta muito a fazer. E o romance tem plena noção disso. Ele faz coisas horríveis – especialmente quando sua mulher está se encontrando na vida – mas não é um vilão: é um sujeito infeliz incapaz de perceber as engrenagens do mundo. Quem tenta fugir disso é Guida irmã mais velha de Eurídice, mas ela vive num lugar e num momento histórico que não lhe são generosos.
 
Há quem encontre em A vida invisível de Eurídice Gusmão algo de telenovela, e sua estrutura parece semelhante, com sua profusão de personagens e tramas paralelas, mas Batalha organiza isso tudo com tanta elegância e maestria, que o resultado está longe dos clichês surrados da televisão. A reconstituição histórica é complexa a ponto de tacitamente criar um paralelo entre o passado e o presente. O romance não precisa gritar “olha como certas coisas não mudam”, só nos mostra de maneira sagaz como os problemas persistem.

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