Letras e fotogramas

Em romance de Fernanda Torres, o fim é apenas uma fase

Por Alysson Oliveira em 02/12/2018
Poderia dizer-se que o fim é apenas o começo, mas seria clichê demais, e, no fundo, nem é o caso no romance Fim, de Fernanda Torres. O fim é mesmo o fim de um (talvez nem seja, vai saber o que vem depois, sabe-se lá onde), mas é só mais um momento – triste, feliz, libertário, indiferente... – na vida de outro. Ao centro da narrativa está um grupo de cinco amigos nascidos por volta do começo da década de 1930 que, no futuro, especialmente nos momentos de suas mortes, buscam aquilo que perdeu – seja lá o que “aquilo” é.
 
O livro parece começar de uma maneira esquemática, cada parte se abre com o monólogo interior dos amigos no dia deu sua morte – o que, obviamente, eles não sabem. O que segue depois seria a vida que segue daqueles que os cercavam – mulher, filhos, amantes e afins –, mas não custa muito, a autora abre mão dessa estrutura engessa e se aventura por um retrato de uma geração que pensou que ia mudar o mundo – ou, ao menos, viver intensamente, mas, no fundo, se acostumou com a vida cotidiana de classe média.
 
Há momento em que eles – Álvaro, Sílvio, Ribeiro, Neto e Ciro – tentam fugir da bolha, mas sempre há as consequências para as quais não estão preparados, se é que alguém algum dia estaria. Transitando entre o humor, a melancolia, a frustração e algumas pequenas tragédias, Torres encontra o que há de peculiar (e ainda assim comum a todos nós) na vida de cada um. Eles nasceram, cresceram, alguns se reproduziram e morrem. A ordem das coisas. Como seguir em frente sabendo que estamos todos fadados a isso? Os personagens, explicitamente, não se perguntam isso, mas, no fundo é essa a questão.
 
Os momentos da morte variam entre o começo da década de 1990 e 2014 – sendo que o livro foi publicado em 2013, isso é uma pequena ousadia divertida, a narrativa acaba no futuro, que, como diz Cazuza, repete o passado. Entre as linhas, entre as vidas e mortes do quinteto, temos o Brasil em transformação se reencontrando pós-Ditadura, pós-Collor, pós-tudo, como sempre. Não é um livro explicitamente político, mas sua crônica dos altos e baixos de uma classe média carioca faz pensar nas transformações culturais, sociais, políticas do país.
 
Embora seja atriz de drama, suspense e o que mais vier pela frente, Torres é mais conhecida pela comédia (injusto, ela tem ótimos trabalhos nos outros gêneros, vide Eu sei que vou te amar – que lhe rendeu prêmio em Cannes – e Terra estrangeira), espera-se (o público-leitor, não que ela tenha qualquer obrigação disso) algo de cômico aqui – e há, mas é um cômico triste, das vidas que não foram como planejadas, as frustrações e sonhos desfeitos. Se há um pequeno porém formal é que as vozes-narrativas dos amigos quando contam seus momentos derradeiros em primeira pessoa são um tanto homogêneas, meio parecidas, mas nada que afete no resultado final do romance.
 
Há um cinismo leve também. A prosa transita entre Nelson Rodrigues e seus subúrbios claustrofobicamente calorentos e Luis Fernando Veríssimo, com sua percepção cômica e certeira das dores e alegrias da vida privada. “O ato supremo do romantismo é o suicídio. Ruth nasceu com o defeito de ser feminina ao extremo e, por consequência, romântica em excesso” – frases como essa poderia ter saído da pena de um ou de outro, mas vem de Torres, que, com picardia, sagacidade e muito carinho desconstrói a vida de seus e suas personagens. Mas ao contrário dos outros dois autores, e, obviamente, por ser mulher, a autora é capaz de figurar o machismo naturalizado na nossa sociedade. Várias vezes sem de dar conta, os protagonistas se valem desse privilégio – até na hora da morte. E isso é a grande qualidade final de Fim

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