Letras e fotogramas

“Dora” e a modernização conservadora

Por Alysson Oliveira em 16/08/2018
No último parágrafo de Dora sem véu, novo romance de Ronaldo Correia de Brito, mencionam-se um Iphone e um MacBook, duas lembranças da tecnologia de ponta diante do que se leu nas mais de 200 páginas anteriores do livro. A expressão “modernização conservadora” aparece uma vez ao longo da narrativa, e parece ser a chave de compreensão dessa história sobre uma socióloga em busca de sua avó que, por conta de um conselho do Padre Cícero, migrou para o Acre.
 
A avó é a Dora do título. A protagonista-narradora é Francisca, socióloga que viaja de caminhão, ao lado do marido, para Juazeiro, tentando recuperar a história da avó, uma dívida que contraiu com o pai, no leito de morte, que lhe contou como abandonou a mãe e três irmãos mais novos, indo para Recife tentar a vida, aos 12 anos. Esse foi um segredo que guardou a vida toda – um peso que o consumiu e transferiu para a filha.
 
As pessoas que passam de pai para filha, de marido para mulher, de homem para mulher são uma das questões centrais. O peso do patriarcado que não só draga mulheres, mas também as mata, é a força gravitacional que prende todas as personagens femininas aqui – sejam elas Francisca, Dora, ou jovem Daiane, que sobreviveu a um aborto e, agora forçada pela mãe, paga promessa vestida de noiva. Logo no inicio do romance, a protagonista trava um diálogo com a mãe da garota, quando ainda estão no caminhão rumo a Juazeiro, sobre o poder que as mulheres deve(riam) ter sobre seus corpos, o que inclui o direito de abortar. É um diálogo repleto de boas intenções, mas literariamente forçado dentro do livro, mais para fazer um argumento e, por isso, soa antinatural. Esse é, no entanto, o único senão dentro da narrativa, que logo encontra seu eixo.
 
Correia de Brito, que é médico, tem um olhar especial para os dramas humanos – tanto os físicos e emocionais, como os sociais. Há um capítulo que se passa num hospital, quando um personagem resgata sua temporada numa enfermaria, relatando diversos dramas, que é tocante em sua composição e forte em seu efeito. As doenças físicas, lembra o livro, estão, muitas vezes, ligadas a mazelas sociais, e só pioram com o descaso com a saúde pública. Ao contrário do diálogo sobre o direito ao aborto, aqui a crítica e denúncia sociais são feitas de maneira sutil e eficiente.
 
Ainda no plano da investigação social, o autor resgata uma história pouco conhecida – ou lembrada – os “campos de concentração”, mais conhecidos como “currais do governo”, no nordeste brasileiro, no século passado. Pobres, obviamente, em sua maioria migrantes, eram colocados num lugar fechado distante da visão dos ricos. Mais um sintoma da modernização conservadora, que dá a chance de modernização de maneira bastante desigual.
 
A visita de Francisca a Juazeiro prova, no entanto, que, como diria Roberto Schwarz, o tempo passou e não passou. Os paralelos entre os currais humanos e a peregrinação abarrotada de gente não são poucos. Dessa maneira, o livro investiga estruturas de poder que permanecem e se fortalecem com o tempo, à medida em que podem ser mantidas de maneiras sutis e ainda mais eficientes. Não passa batido também como essas estruturas podem se repetir de maneiras um tanto homólogas na periferia do capitalismo. “De tempos em tempos, as expressões "extermínio em massa" e "genocídio" reaparecem, como no caso de Alepo. Nos confrontos de brancos e negros nos Estados Unidos, na década de 60, alguém identificou uma tentativa de extermínio”, comenta um personagem.
 
A estrutura, no entanto, que permanece com mais força ao longo da história e da narrativa é a da dominação sobre as mulheres. Francisca, mais do que as outras, consegue, não sem muito esforço, uma certa ascensão social – ao contrário de todas as outras mulheres. “Por que matam mulheres em Pernambuco? Por que matam mulheres no mundo? Quem estabeleceu esse sacrifício?”, pergunta-se a narradora. Dora é um fantasma que persegue sua neta – mas, mais do que uma manifestação pessoal, é uma manifestação social, o retrato de mulheres quase sempre abandonadas pelos pais dos filhos que tentam levar uma vida digna à margem da margem.
 
Correia de Brito, que tem em sua bibliografia o potente Galileia, é um escritor que encontra poesia na dura aridez da vida do nordestino. Sua obra investiga as relações de classe na região, mostrando uma elite extremamente rica diante de uma vasta camada de pobres. Dora sem véu descortina os véus da herança escravocrata e colonial – o que já é um grande feito. 

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