Letras e fotogramas

Um filme chamado ‘Wanda’

Por Alysson Oliveira em 05/08/2018
O ano era 1970, a Segunda Onda do feminismo era, entre tantas coisas, uma luta contra a domesticidade da mulher. O Pessoal é politico, de Carol Hanish, havia sido publicado no ano anterior. Em Wanda, único longa que a atriz Barbara Loden escreveu e dirigiu, um cinema de guerrilha, e, ao mostrar a vida pessoal de uma mulher solitária e sem opções, é também relevantemente político.
 
Loden, que era uma atriz relativamente famosa na Broadway e em Hollywood, era casada com Elia Kazan, na época, e esteve no Clamor do Sexo, como a irmã o personagem de Warren Beatty. Mas ela estava cansada dos papeis de bombshell ou femme fatale, e queria interpretar uma mulher de verdade. A solução foi fazer o seu próprio filme. O resultado é um clássico feminista, que, ao lado de Jeanne Dielmann (feito alguns anos mais tarde) reina absoluto como o grande filme do gênero.
 
Wanda (Loden) é uma mulher solitária que vive num estado de depressão numa região mineira onde todos trabalham nas minas, sem qualquer outra opção. Ela é casada e tem dois filhos, mas não tem vontade de tirar os bobs do cabelo ou sair do sofá. Seu marido pede divórcio, ela aceita. Quando ele alega que ela é negligente com os filhos, ela não contesta; quando o juiz da a guarda das crianças ao marido, ela não faz nada.
 
Rodado em 16mm, com uma fotografia granulada de Nicholas T. Proferes, que também assina a montagem, mais do que um filme sobre a alienação involuntária de uma mulher no pós-Guerra, Wanda é um filme sobre uma pessoa que tenta se libertar das amarras que lhe foram impostas. Mas, como ela nunca teve qualquer experiência de vida, acaba se envolvendo com as pessoas erradas. Na verdade, “pessoas erradas” é uma questão de ponto de vista, pois para ela, o ladrão Norman Dennis (Michael Higgins) é qualquer coisa menos errado. Ela é incapaz de perceber o quão abusivo o sujeito é.
 
O cinema de Loden se aproxima do naturalismo de Cassavetes de Sombras e um registro desesperadamente contido de uma vida que se nulifica toda vez que tenta se libertar. É melancolia de ponta a ponta, representada com intensidade por Loden, tanto como diretora como quanto na frente da câmera. Marguerite Duras chamou o filme de “um milagre”, e disse perceber “uma continuidade distante e permanente entre Barbara Loden e Wanda”.
 
Wanda, apesar de premiado no Festival de Veneza de 1970, foi discretamente ignorado nos EUA – em no restante do mundo – mas acaba de ser relançado lá em cópia restaurada. No Brasil, está disponível em DVD da Lume Filmes. Não existem muitas menções ao filme ao longo dos quase 50 anos que se passaram. Rachel Kushner cita-o de maneira breve em seu romance The Flamethrowers [Os lança-chamas, no Brasil], mas isso é virtualmente tudo, embora, nos últimos anos o filme tenha começado a ganhar um reconhecimento.
 
Talvez, como diz o site da Criterion Films: “O público americano não estava preparado para Wanda, quando estreou.” Não é de se estranhar mesmo. O filme explora como o Sonho americano é negado sistematicamente às mulheres. Se ele é uma grande mentira, ao menos os homens, podiam a viver. As mulheres nem isso. O estudo de personagem que domina a primeira parte do filme – desde a Pensilvânia rural até a protagonista viver uma vida de pequenos roubos com Dennis (em que ela vê, algum propósito na vida – ao contrário de seu marido) – é cru e certeiro.
 
Ao final, Wanda questiona sobre as possibilidades que essa mulher tem ou teria em sua vida. A aventura com o ladrão, que culmina num desfecho sangrento, mudou sua vida? Existe alguma chance de transformação na vida dela? Ou estará fadada à Pensilvânia melancólica, barrenta e granulada onde sempre morou? Loden, sagazmente, não dá respostas, mas o olhar vazio de sua personagem numa imagem que persiste nos créditos finais abre possibilidades: um vazio que a tudo domina ou um vazio pronto para ser preenchido novamente?   

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