Letras e fotogramas

"A sociedade do espetáculo": O tempo que passou e não passou

Por Alysson Oliveira em 20/07/2018
Publicado há pouco mais de meio século, A sociedade do espetáculo, de Guy Debord (com tradução de Estela dos Santos Abreu, pela editora Contracampo) continua tão relevante e incisivo quanto quando foi lançado. A questão é que tudo aquilo que o pensador teorizou em seu livro foi elevado à nível exponencial nas últimas décadas do século XX, e hoje é escancarada e assustadoramente o mundo em que vivemos.
 
O livro chega a nós, do século XXI, entre algo profético e alarmista. As constatações e comentários de Debord chegam a assustar. Parafraseando a abertura de O capital, ele conclui o primeiro parágrafo com: “Tudo o que era vivido diretamente tornou-se uma representação”. De 1967 para cá, isso só pirou, numa sociedade globalizada que tem a internet como mediadora de relações entre todos os cantos do mundo. É o espetáculo atingindo níveis assustadores.
 
Em menos de 150 páginas, Debord transita desde a espetacularização da vida até a materialização da ideologia de maneira clara na sociedade, investigando entre isso modos de produção alternativos ao capitalismo – com suas qualidades e limitações –, a total cooptação do tempo e da história pelo capital, e saindo com uma ótima definição de ideologia: “A ideologia é a base do pensamento de uma sociedade de classes, no curso conflitante da história. Os fatos ideológicos nunca foram simples quimera, mas a consciência deformada da realidade[.]” Debord também não poupa a Velha Esquerda (“O fim sangrento das ilusões democráticas do movimento operário fez do mundo inteiro uma Rússia.”) e parte da Nova Esquerda.
 
Ler esse livro é tanto um exercício para se abrir os olhos como também uma acumulação de melancolias e figuração de frustrações – especialmente quando nos damos conta de que nessas cinco décadas muito pouco (ou quase nada) mudou, estruturalmente, e todas as tentativas de resistência ou busca de novos caminhos foram podadas ou fracassaram. Em uma nota de 1978, sobre seu texto “Cultura e Política 1964-1969” (escrito entre 1969 e 1970), Roberto Schwarz termina dizendo: “O leitor verá que o tempo passou e não passou.” Impossível ler A sociedade do espetáculo, e não se lembrar disso. 

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