Letras e fotogramas

Blade Runner 2049: Células interligadas

Por Alysson Oliveira em 04/10/2017
O que sonham os androides, se é que os androides sonham, quando sonham? Talvez sonhem em alcançar a humanidade que lhes será negada. Blade Runner 2049 é um Pinóquio pós-industrial no qual máquinas nos lembram o que é ser humano num dado momento da história.
 
Trabalhando com roteiro assinado por Hampton Fancher (roteirista do original) e Michael Green (Deuses Americanos, Logan), o canadense Dennis Villeneuve não deixa pesar o sobre os ombros do seu filme a mitologia do original. Por isso é capaz de criar um longa que fica a par com o de Riddley Scott, de 1982, e faz uma bela homenagem à obra de Philip K. Dick, sem que seja uma adaptação propriamente dita (embora alguns dos interesses e ansiedades do escritor estejam todos na tela). Aqui, novamente, a trama transita entre o noir e a ficção científica.
 
K (Ryan Gosling) é um policial de Los Angeles que trabalha “aposentando” androides que aspiram à humanidade. Logo na primeira cena, no entanto, após exterminar um sujeito que tem uma fazenda de proteínas surge uma complicação. Descobre-se que uma androide deu uma criança à luz – o que pode causar uma nova rebelião, elevando o status dos humanoides.
 
A questão central aqui é a discussão daquilo que nos caracteriza como humanos: a capacidade de reproduzir. Ficção científica, no cinema e na literatura, é o gênero das grandes ideias, o gênero que extrapola os limites da realidade e, ainda assim, se mantém no real, no plausível. Toda vez que K termina uma missão, ele passa por uma interrogatório, tendo que responder perguntas com rapidez. Nenhuma faz muito sentido, mas as palavras que ele mais repete são “células” e “interligadas”. Tudo isso para investigar se sua porção robô e sua porção humana estão em equilíbrio. E sempre estão – até o dia em que não, e o mundo sai dos eixos.
 
Blade Runner 2049 é um filme de ação, mas também de questionamentos e investigações. Está longe de ser um filme filosófico – que Deus o abençoe! – mas é sobre questionamentos e incertezas. Deckard vai aparecer com bem mais de uma hora de projeção, e a figura de Harrison Ford é, ao mesmo tempo, imponente e abatida – vivendo num mundo de resíduos daquilo que conheceu, coberto por uma areia talvez contaminada e estátuas fantasmagóricas que formam um caminho lembrando o passado grandioso de um mundo que se deixou levar por suas ambições. Um mundo onde nem humanos nem Pinóquios parecem ter vez. Um mundo fadado ao fracasso.

Deixe seu comentário:

Imagem de segurança