Letras e fotogramas

Erguendo mundos para os esfacelar

Por Alysson Oliveira em 07/09/2017
Um dos elementos mais importantes e fascinantes de livros e filmes de ficção-científica e fantasia é a construção de um mundo próprio. Pode ser bem parecido com o nosso, mas pode também ser o nosso de maneira cifrada – nesse sentido, é capaz que seja ainda mais semelhante àquele em que vivemos. É um elemento básico para a narrativa, mas não fácil de atingir, pois é preciso coerência e coesão internas, tudo estar muito bem armado para que o leitor acredite naquele mundo. Não são muitos escritores e escritoras que conseguem tal feito à perfeição. Em seu THE FIFTH SEASON, a norte-americana N. K. Jemisin faz isso de maneira insuperável, é brilhante. Ergue um mundo com pontos de contato com o nosso, cria geografia, fauna, flora e habitantes – para, ao mesmo tempo, destruir esse mundo. Ela pode se dar a esse luxo.
 
A terra onde a trama se passa é chamada Stillness (há até um mapa no começo do livro) – o nome é irônico, pois o que mais há nesse lugar é um fluxo de transformações, nem sempre positivas. De tempos em tempos, o lugar enfrenta apocalipses das mais variadas magnitudes, e há até um apêndice no final do romance recontando cronologicamente cada uma dessas destruições. Dessa forma, a realidade da civilização e das pessoas do lugar é efêmera, não é possível fazer grandes planos pois o lugar onde mora vai ser varrido do mapa a qualquer momento. Gerações vivem debaixo desse véu da incerteza.
 
Cada um dos desastres é chamado de Season, e o próximo, acredita-se, será o mais devastador, varrendo até a história da História. Dessa forma o passado e presente da protagonista, Essun, professora de uma escola primária, são incertos. Sua vida é marcada pela tragédia, quando marido matou o filho e fugiu com a filha, que também parece ter matado. Essun quer encontrar sua filha, mas também quer vingança, e o poder sobrenatural que ela tem é a sua arma. Jemisin fratura sua trama em três personagens – as outras duas são Syen e Damaya – , cujas histórias se sobrepõem até o momento em que deverão se encontrar.
 
A diversidade de ponto de vistas permite uma visão mais abrangente de Stillness, sua história, pessoas e eventuais destruições. Jemisin escreve com segurança e sem floreios. Sua força está na criação das personagens e desse mundo, tudo englobado numa lógica interna que não engessa o livro, mas traz-lhe coerência. A autora toca em temas difíceis sem fazer de seu romance um panfleto, mas, sim, uma possibilidade de figuração do nosso presente, e especialmente dos afrodescendentes, quando aborda questões como genocídio e eugenia. Há alguns momentos em que The Fifth Season lembra Octavia Butler – especialmente quando se busca uma conexão entre as narrativas de escravidão e a questão racial no presente.
 
The Fifth Season – previsto para ser lançado no Brasil ainda esse ano – é o primeiro romance da trilogia The Broken Earth. E ganhou o Hugo, um dos principais prêmios do gênero, no ano passado. Sua sequência, The Obelisk Gate, levou o mesmo troféu nesse ano, em agosto passado. E o último romance da série, The Stone Sky, lançado há poucos dias, também, por motivos óbvios, já desponta como favorito para a premiação no próximo ano.

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