Letras e fotogramas

Ninguém nasce escritora: Um anjo em minha mesa, de Jane Campion

Por Alysson Oliveira em 07/08/2017
Em UM ANJO EM MINHA MESA, Jane Campion mergulha com coragem e profundidade numa porção de temas e questões que já estavam presentes em suas obras anteriores, mas que, aqui, finalmente se materializam com maturidade, fazendo parecer que até então, por ótimos que fossem seus filmes, era um ensaio. A vida da escritora neozelandesa Janet Frame serve com a bússola a essa investigação do papel da mulher (especialmente da mulher artista) numa periferia do capitalismo.
 
Campion, que assina o roteiro com Laura Jones, a partir de um trio de biografias de Frame, coloca ao centro uma mulher se tornando escritora – o que ecoa, de certa forma ampliando, a célebre frase de Simone de Beauvoir - aqui: “Ninguém nasce escritora, torna-se escritora”. O processo de aprendizagem, formação de subjetividade e de encontrar seu lugar no mundo foi doloroso para Frame, nascida em Dunedin, em 1924, e viveu lá até sua morte, em 2004.
 
Com fotografia assinada pelo inglês Stuart Dryburgh (O Piano, A Grande Muralha), Campion trabalha com cores saturadas, o que dá um brilho e destaque especial à cabeleira vermelho-fogo de Frame desde a infância. Numa das cenas mais bonitas, uma amiguinha pergunta se pode tocar nos cabelos, e ela, claro, deixa.  A paisagem neozelandesa também se destaca criando um ambiente que ora oprime, ora liberta.
 
A vida da escritora é contada desde sua infância, e uma das primeiras imagens do filme é uma bebê deitada no sol quando a mãe num vestido colorido vem em sua direção. Nesse momento, a câmera se torna subjetiva, e a mulher vem “em nossa direção”. Dessa forma, Campion deixa claro: essa não é apenas a história da vida de Frame, mas é a história da vida de Frame contada por ela mesma. É um ponto importante aqui, pois a diretora dá direito de voz a uma voz que foi sufocada por anos.
 
Frame foi erroneamente diagnosticada com esquizofrenia, e internada numa clínica, onde recebeu eletrochoques. Ela publicou seu primeiro livro, uma coletânea de contos, em 1951, quando ainda estava internada, e é de se imaginar o quanto a escrita não a ajudou a colocar suas ideias no lugar e sobreviver a essa calvário.
 
A personagem é interpretada por Alexia Keogh, Karen Fergusson e Kerry Fox, em cada momento de sua vida, e, fora a semelhança física, o trio de atrizes é capaz de compor um retrato coeso de uma mente brilhante sufocada, em diversos momentos, por adversidades. Cada experiência conta, de uma maneira ou de outra, na sedimentação da subjetividade da escritora que servirá de material para seus textos.
 
Campion encontra em Frame e sua obra uma parceira – especialmente nos temas – para discutir o papel da mulher na sociedade – um das ansiedades de sua filmografia – e todas as imposições que vêm com isso. A questão é arrebentar as amarras, e se encontrar, se fazer mulher, e, aqui, no caso, escritora também. 

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