Letras e fotogramas

O Édipo de Sam Shepard

Por Alysson Oliveira em 07/08/2017
Talvez 2017 seja o ano em que autores de língua inglesa reescrevam clássicos gregos. Colm Tóibín (House of No Names), Natalie Haynes (The Children of Jocasta), David Vann (Bright Air Black), Kamila Shamsie (Home Fires) partem de tragédias gregas criando uma ponta entre passado clássico e o presente, e reverberando aqui o que foi dito lá. Em sua última peça (originalmente encenada na Irlanda, em 2013), Sam Shepard faz uma espécie de experiência pós-moderna com Édipo em A PARTICLE OF DREAD (OEDIPUS VARIATIONS), lançada em forma de livro este ano.
 
A dualidade é o que marca o texto, que tem como cenários a Grécia Antiga e o deserto da Califórnia. Édipo também é Otto, assim como Jocasta é Jocelyn, e Tirésias é Tio Del. A trama mantém-se fiel, à medida do possível, ao original, na qual uma profecia diz que Édipo matará o pai, e se casará com a mãe. Tentando evitar isso, o pai, Laio, tenta se livrar da criança, e o que vem depois é mais do que conhecido.
 
Mas é a questão da identidade e o destino que ganha mais força aqui. Quando Édipo tem dúvidas existencialistas sobre quem ele é, Jocasta lhe responde: “Seu tormento não conhece limites! [...] Aprenda a amar a tinta negra a sombra de tinta negra da morte tanto quanto você ama a luz do alvorecer”.
 
Shepard, porém, não está amarrado à trama original, como o próprio título indica, são “Variações” sobre um tema, então, o dramaturgo tem espaço para criar sobre as possibilidades – flertando especialmente com as tramas de detetive e o gore – dá a sensação de haver sangue para todo lado. A particle of dread pode não atingir o mesmo potencial dos melhores textos de Shepard. Mas uma peça de Sam Shepard é sempre uma peça de Sam Sherpad, e vale muito.
 

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