Letras e fotogramas

Two Friends, de Jane Campion

Por Alysson Oliveira em 24/07/2017
O primeiro filme de Jane Campion, TWO FRIENDS (1986), poderia ser classificado como um cruzamento entre Sofia Coppola e Mike Leigh. Da primeira, as dores do crescimento, jovens moças enfrentando experiências que as amadurecerão. Do inglês, a textura social de uma classe média baixa e trabalhadora. Feito para televisão australiana, mas lançado em cinema na década de 90, depois de o sucesso de O Piano, o longa traz em si os temas e ansiedads que permearão a obra da cineasta.

Campion trabalha com um roteiro original da grande escritora australiana Helen Garner, que, na década de 1970, foi professora numa escola secundária e demitida depois de responder aos alunos suas perguntas sobre sexualidade. Possível dessa experiência com jovens, a autora tirou o material para esse drama que tem ao centro a dissolução da amizade de duas adolescentes, que mudarão de escola.

Kelly (Kris Bidenko) e Louise (Emma Coles) moram no subúrbio de Sidney, e são amigas desde sempre. Estudam na mesma escola, saem juntas para paquerar, passam a noite uma na casa da outra. Agora, se preparam para entrar numa prestigiosa escola, na qual as aulas usam uniformes e participam de um coral madrigal. O padrasto de uma delas, no entanto, proíbe a menina de se matricular: “essas garotas estão na idade de estudar rock and roll, não madrigais”, decreta ele, tachando, não sem razão, a escola de elitista. O mundo das meninas desaba.

A entrada ao mundo adulto na obra de Campion é doloroso para as mulheres, e isso não acontece necessariamente na adolescência, pode ser tardio – e hoje, podemos (re)colocar Two Friends em perspectiva. A menina de O Piano, que é a tradutora da mãe, Isabel Archer, em Retrato de uma mulher; a garota envolvida com um culto religioso, em Fogo Sagrado; a professora na mira de um assassino, em Em Carne Viva; e, por fim, a jovem apaixonada pelo poeta moribundo, em Brilho de uma paixão. Em diferentes épocas e contextos, as personagens de Campion precisam lidar com um mundo que limita suas escolhas, mas não sua  percepção dele. É daí que nasce a rebeldia – nem sempre compreendida.

Two Friends trabalha o tempo de maneira fragmentada. Primeiro vemos que a amizade irá terminar, mas, só depois como e porquê. Nesse sentido, o filme termina com uma nota de otimismo momentâneo. Como se dissesse “um problema de cada vez”. E talvez esse mesmo seja o mantra das heroínas da diretora.

Deixe seu comentário:

Imagem de segurança