Letras e fotogramas

"Um Pai de Cinema": Vivendo por inércia

Por Alysson Oliveira em 21/07/2017
 “Eu quero ser protagonista de minha própria vida”, diz uma personagem num momento climático do romance – na verdade está mais para um conto longo ou novela – UM PAI DE CINEMA, do chileno Antonio Skármeta (Trad. Luís Carlos Cabral), e que Selton Mello acaba de adaptar para o cinema. A frase dela, no entanto, resume bem o sentimento de todas as figuras que transitam pelas páginas do livro – especialmente o narrador-“protagonista” Jacques, um jovem professor numa pequena aldeia frustrado com absolutamente tudo em sua vida.
 
Todos na trama são de certa forma coadjuvantes em busca de um protagonista ou protagonismo deles mesmos que nunca aparece, por isso transitam de um lado para o outro, vivem praticamente por inércia. Jacques se formou na capital como professor, e no mesmo trem que volta para casa, seu pai vai embora para e pretende voltar para sua terra natal, a França. A vida do rapaz, sem muitos alicerces, desmorona. Nada o agrada, os alunos o desanimam; a sua virgindade o consome; e o lugar onde mora o sufoca. Mas ainda assim, ele praticamente não tem iniciativa para mudar nada disso.
 
Acompanhamos seu cotidiano em capítulos curtos e uma prosa direta e poética. Sabemos bastante sobre esse jovem, mas muito pouco sobre as outras pessoas, e tudo vem filtrado pelo seu olhar, o que se transforma na maior contenção da narrativa. Talvez seja a visão de macho latino inconsciente ou propositadamente (o que faria do livro algo sintomático) trazida à tona pelo escritor, mas os personagens são quase destituídos de nuance. Todas as mulheres são ou tolas ou mesquinhas (a algumas o narrador guarda algo ainda pior), enquanto todos os homens (ah, esses coitados sofredores!) são mártires e heróis, pois mais discutível que seja o comportamento deles em algum momento.
 
Skármeta sabe como criar um sentido de comunidade, e paisagens fortes, especialmente com o cenário ditando o comportamento e atitudes de seus personagens. “Moro perto do moinho. Às vezes o vento cobre meu rosto de farinha”, diz o narrador logo no primeiro parágrafo. Imagens como essa se repetem, seduzem, e correm o risco de alienar o leitor encobrindo (ou invertendo) a dinâmica de dominação e sufocamento que está realmente acontecendo.

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