Letras e fotogramas

De canção em canção: Na forma da música

Por Alysson Oliveira em 19/07/2017
 
 
“A forma de uma obra se transformou no conteúdo;
e o que consumimos em tais obras é a própria forma.”
“The Aesthetics of Singularity”, Fredric Jameson, 2015
 
 
No Planeta Terrence Malick, os meteoritos que caem nunca são os mesmos, mas são compostos da mesma matéria, o nosso presente. Se nosso tempo é caótico, fragmentado e incapaz de ser historicizado, não se deve exigir uma narrativa ao modo clássico que um investigador do presente. A forma de seus filmes se tornarão cada vez mais etérea, menos palpável, mais estilhaçada.
 
Em DE CANÇÃO EM CANÇÃO, Malick está um tom abaixo da ambição de CAVALEIRO DE COPAS – lá era o estilhaçamento completo da atualidade, era uma timeline de Facebook, na qual as peças não se juntam, mas tentam dar a dimensão da totalidade (clique aqui para ler mais). Aqui, a tentativa de mapeamento é mais organizada comparativamente – o que não quer dizer que também não seja uma tentativa vã, simplesmente porque historicamente é impossível.
 
A singularidade do presente, a expressão jamesoniana, que pousa no filme de Malick são as performances musicais – cada uma é única. Cada show é um só, mas, ao mesmo tempo, é igual a todos os outros que o artista já fez. O tempo é o presente, é o tempo de uma performance, e os artistas e suas obras são mercadorias a serem consumidas. No mundo de hoje, aliás, quem não é uma mercadoria a ser consumida?
 
Do quarteto de personagens centrais desse filme, apenas Cook (Michael Fassbender), um magnata da música, parece ter consciência disso. Ou talvez, ele nem a tenha, mas, ainda assim, é capaz de ganhar dinheiro com a música. Seu embate é com as visões mais românticas da arte – do compositor BV (Ryan Gosling) e da aspirante a compositora Faye (Rooney Mara). O último vértice é a garçonete Rhonda (Natalie Portman), que não está diretamente ligada à música.
 
Parte do filme foi rodada em 2012, no festival Austin City Limits, o que ajuda a conferir a tal da “singularidade” do filme. Na volatilidade do presente, numa apresentação musical, talvez mais do que em qualquer outra manifestação artística (possivelmente numa instalação também), o que conta a experiência do show, mais do que o show em si – daí a câmera quase etérea de Malick (a direção de fotografia é, novamente, assinada por Emmanuel Lubezki) que não consegue parar de se mover, criando algo fantasmagórico e também fluido.
 
Essa mesma fluidez materializa a fluidez do capital no cenário musical do Texas – metonímia do presente –, onde estão os personagens. A música se torna o mediador cifrado das relações fazendo as vezes do dinheiro. A única pessoa ciente disso é Cook, uma figura mefistotélica que parece usar Faye para sua diversão. BV, por outro lado, está perdido numa espécie de visão romântica da arte – em contraposição a algo mais mundano e pragmático do rival, que tenta, a todo custo, a o trazer para o mundo real.
 
Se as relações humanas são mediadas pela música, a incapacidade de boa parte dos personagens lidar com esse mediador, condena suas tentativas de aproximação ao fracasso, por mais que eles se esforcem. A deformação emocional dessas pessoas encontra ressonância na tela do cinema quando closes são feitos com uma grande angular, criando outra espécie de fantasmagoria.
 
Poucos investigam o presente de forma tão incisiva com Malick. Seus filmes recentes, por mais falhas que possam ter, depuram na forma a essência do nosso presente – retalhado, incapaz de ligar pontos, incapaz de ordenar a história. O que chega até nós são os fragmentos dos meteoritos – ou seja, pedaços dos pedaços. O que conta, novamente, é mais a experiência do filme do que o filme em si.

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