Letras e fotogramas

Retrato de uma sobrevivente quando jovem

Por Alysson Oliveira em 08/02/2010

PRECIOSA, de Sapphire, Editora Record, 192pg, R$29,90
 
“Quero falar que sô alguém. Quero falar isso no metrô, na TV; no cinema, ALTO. Vejo as caras cor de rosa de terno olhando por cima da minha cabeça. Vejo eu desaparecer nos olhos deles, nas prova deles. Falo alto, mas mesmo assim eu não existo.” É esse o desespero da personagem central do romance “Preciosa” (, escrito pela poetisa Sapphire e publicado nos Estados Unidos em meados da década de 1990, que acaba ser lançado no Brasil, pegando carona na estreia do filme homônimo que entra em cartaz no país na próxima sexta-feira.
 
Claireece Precious Jones tem 16 anos, é obesa, mal sabe ler e escrever, tem uma filha pequena e está em sua segunda gravidez – ambas frutos do abuso de seu próprio pai. A mãe, ao invés de proteger a filha, a culpa por ter ‘roubado o seu homem’, e também se aproveita sexualmente da filha. É um retrato doloroso que compõe o romance – até o momento que entra em cena uma professora de uma escola alternativa. A mestra atende pelo poético nome de Blue Rain, e muda a vida de Precious, a ensina a ler, escrever, mas, acima de tudo, a ter amor próprio.
 
Não é à toa que a história de superação dessa personagem afro-americana chamou a atenção de Oprah Winfrey que é uma das coprodutoras do filme. Não por acaso, a história de Precious soa como ‘um caso da vida real’, que a apresentadora levaria ao seu programa para mostrar como a jovem superou todas as adversidades e sobreviveu a uma história de abusos mais variados.
 
O romance de Sapphire parece uma combinação entre “O apanhador em campo de centeio”, de J. D. Salinger, e “A cor púrpura”, de Alice Walker. Mas é, em sua essência, uma história de triunfo, de uma personagem que vence a todas as adversidades. Às vezes, rápido demais, aliás. Numa página, Precious luta para aprender a ler, soletrando as palavras, letra por letra, poucas páginas depois, ela já lê “A cor púrpura” com certa habilidade.
 
Um painel de sofrimento, degradação e superação humana é composto pelas colegas de Precious na escola –as únicas pessoas, ao lado, da Srta Rain que parecem ter algum sentimento positivo pela garota. São histórias tão difíceis quanto a da própria protagonista-narradora. Numa espécie de apêndice ao final do livro, aparecem os relatos dessas personagens. Contadas juntas, essas histórias mais parecem uma das sessões de grupos de ajuda dos quais Precious participou, enfraquecendo, assim, o relato central ao fazer uma verdadeira galeria de possíveis horrores.
 
Tudo o que Precious parece querer é ter um lugar no mundo. “Pra mim isso não é nada novo. Sempre teve alguma coisa errada com as prova. As prova dá uma ideia de que eu não tenho cérebro. As prova dá uma ideia de que eu e minha mãe, minha família inteira, que a gente somos mais do que idiota, a gente somos invisíveis”. A jornada da personagem, em busca de um lugar no mundo, inclui, no entanto, primeiramente, aceitar a si mesma. Em seus delírios, uma fuga da realidade cruel, a protagonista se imagina branca, magra, linda e amada. No entanto, essa fantasia jamais se concretizará, e o primeiro passo para uma vida melhor é ela amar a si mesma como ela é.
 
O que há de melhor em “Preciosa” é a voz narrativa do livro, muito bem traduzida, alias, por Alves Calado. Precious não mede palavras e diz praticamente tudo o que pensa, na forma como pensa. Por isso, muitas vezes, sua narração é um jorro contínuo e desgovernado, pontuado por muitos palavrões. É interessante, à medida em que ela adquire mais educação, suas ideias ficam mais organizadas, assim como sua linguagem.
 
Sapphire sabe muito bem como manipular e comover – nem sempre na medida e na hora certa, no entanto. Às vezes, a emoção que vem de “Preciosa” soa real e original, por isso mesmo autentica. Em outros momentos, a história da personagem mais parece alguém que procura a ajuda de um programa de televisão para melhorar de vida. Em seus melhores momentos, porém, o romance é capaz de transcender o papel e atingir a vida. “Meu neném é um neném bonito. Não amo ele. Ele é o neném de um estrupador. Mas tudo bem, a Srta Rain diz que a gente é uma nação de crianças estrupada que o negro dos Estados Unidos de hoje é o produto do estrupo.”

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