Letras e fotogramas

O jogo de cena do romance francês "Baseado em Fatos Reais

Por Alysson Oliveira em 09/05/2017
Já estamos em 2017, e a literatura ainda consegue achar graça no jogo entre realidade e ficção. O romance autobiográfico ainda existe, e muita gente lê romance ("puro") como quem lê não-ficção, e pergunta para o autor se aquilo já aconteceu com ele, ou com algum conhecido. A escritora francesa Delphine de Vigan potencializa esses conceitos em seu BASEADO EM FATOS REAIS, lançado originalmente em 2015, e que acaba de ser adaptado para o cinema por Roman Polanski.
De Vigan ficou famosa escrevendo romances com um pé bem fincado na realidade. Trata-se de Rien ne s'oppose à la nuit (inédito no Brasil), no qual abordava o suicídio de sua mãe. O livro lhe trouxe fama, a ponto de a assustar, como declarou em entrevistas. Se nesse ela constrói o romance biográfico, em Baseado em Fatos Reais é a desconstrução do formato, a partir de um jogo de verdades e mentiras que conduz a narrativa.
A protagonista é a própria escritora enfrentando um bloqueio logo depois do sucesso de Rien.... Exaustada devido a uma série de eventos e afins, ela acaba conhecendo L., uma mulher mais ou menos de sua idade (na verdade, conforme diz a narradora, não é possível definir), que trabalha como ghost writer, e, aos poucos, se embrenha na vida da autora.
Delphine-personagem não deve ter visto Mulher Solteira Procura, ou qualquer outro filme no qual um personagem surripia a identidade de outro. Baseado em Fatos Reais, traduzido por Carolina Selvatici, é o tipo de narrativa que depende um pouco da parvalhice de sua protagonista. Fosse ela um pouco mais esperta, não teríamos história. L. não entraria em sua vida de forma tão dominante. Talvez por isso, a toda hora Delphine-personagem precise se justificar, incrédula de como não percebeu o que estava acontecendo. Amiga, na página 10 já dava pra sacar que não ia acabar bem, mas, enfim...
Delphine-escritora trabalha num ritmo de thriller, e cria uma tensão exemplar a cada novo movimento de L., uma mulher elegante, sempre bem arrumada, com dinheiro e inteligência. Com o tempo, ela se faz indispensável na vida da protagonista, seduzindo-a de tal forma que mal dá para saber onde acaba uma e termina outra. L. Se o suspense é uma ferramenta, o que interessa a autora são meditações mais filosófico-literárias.
Há uma discussão – um tanto datada, talvez, num momento de ascensão de reality shows e hypernarrativas – sobre o efeito do real, mas a escritora não ignora as novas formas de narrativa que ganham espaço no presente – especialmente com a televisão. “As séries dão ao romanesco um território um território muito mais fecundo e um público infinitamente maior”, diz L. tentando convencer Delphine a escrever mais um romance autobiográfico – algo que a personagem-autora não descarta, mas também não tem certeza se quer.
Diante da parálise da protagonista, L. ganha mais espaço em sua vida, e em Baseado em Fatos Reais, mas como tudo é filtrado pelo ponto de vista de Delphine-personagem, é preciso desconfiar. “Seus livros não devem nunca parar de interrogar suas lembranças”, insiste L. Uma crítica mais psicanalítica certamente tem matéria abundante para uma leitura desse romance, definindo quem são id, ego e superego dentro da narrativa.
Qual o ponto de intersecção entre a Delphine escritora e a personagem? Alguns fatos – especialmente biográficos - são facilmente confirmáveis – ela tem um casal de filhos gêmeos, é casada com o crítico François Busnel etc –, mas e L? L. talvez seja, simplesmente, a versão feminina do Tyler Durden da literatura francesa.

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