Letras e fotogramas

Os tabus da série inglesa Taboo

Por Alysson Oliveira em 09/03/2017
É bem provável que o “tabu” ao qual se refere o título da série TABOO [exibido no Brasil no canal FX] não seja exatamente – ou melhor, exclusivamente – a relação incestuosa entre os meios-irmãos James Keziah Delaney (Tom Hardy) e Zilpha Geary (Oona Chaplin). Numa Inglaterra em transformação com a ascensão do capital na forma da Companhia das Índias Orientais, o protagonista volta África, recebe a herança do pai que morreu há pouco, e um pedaço de terra valioso num ponto estratégico, na Colúmbia Britânica, e com isso desafia o poder. Um mestiço desafiando a classe alta? Eis um tabu ainda maior.
 
Delaney, filho de um inglês magnata da navegação e uma nativa americana, esteve na África, onde se envolveu com rituais xamânicos, viu um navio negreiro afundar, e aprendeu uma língua misteriosa. Sua chegada em Londres desagrada a todos – exceto à meia-irmã casada, que nutre uma paixão recíproca, mas, obviamente, reprimida. Há também uma criança envolvida, cuja criação, por outra família, Delaney sempre bancou, que pode ser fruto do incesto.
 
Escrita por Steven Knight (Senhores do Crime, Locke, Aliados) a partir de uma ideia de Hardy e seu pai, Edward “Chips” Hardy, Taboo combina referencias de Charles Dickens a Joseph Conrad, transformando Delaney tanto num Kutz quanto num Marlowe que volta à Europa após a experiência na África. A direção é assinada por Anders Engström e Kristoffer Nyholm.
 
Sir Stuart Strange (Jonathan Pryce), da Cia das Índias Orientais, acredita que o protagonista está mancomunado com os americanos, e arma um plano para o matar, enquanto Delaney compra um navio assombrado e o reforma. E isso não é nem metade da série. Entra em cena, mais tarde, a melhor personagem feminina aqui, uma atriz de teatro chamada Lorna Bow (a impressionante irlandesa Jessie Buckley), que alega ser a viúva do pai de Delaney, e clama sua parte na herança – tudo havia ficado para o protagonista, que imediatamente fez um testamento deixando tudo para os Estados Unidos, o que torna sua morte pouco lucrativa para seus inimigos.
 
O tabu de Delaney é investir contra a poderosa Cia das Índias Orientais apoiar os EUA, enquanto planeta acumular capital. O ritmo da narrativa é cadenciado, e nem sempre tudo fica claro, o que mantém um certo mistério apoiado na dinâmica de um mundo rico e de ostentação e do barro que cerca a região onde os navios estão ancorados – repletas de mendigos, bêbados e prostitutas (a alemã Franka Potente tem um papel crucial como uma delas).
 
Mas não se engane. O show é de Hardy, pensado e calculado para ele brilhar. O que não é ruim, pois como um dos melhores atores de sua geração, ele resmunga como ninguém – cf. suas poucas falas em MAD MAX – e aqui faz isso e algo mais, munido de um inseparável chapéu (seu verdadeiro coadjuvante) e tatuagens tribais (que não são as suas da vida real). Sua presença constante em cena é magnética, especialmente porque o personagem passa o tempo todo lutando contra sua dimensão trágica.

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