Letras e fotogramas

Mapas do presente no Malick tardio

Por Alysson Oliveira em 03/03/2017
É possível que KNIGHT OF CUPS seja o clímax de uma investigação sobre o presente que Terrence Malick está fazendo desde 2011, com A ÁRVORE DA VIDA, seguido de AMOR PLENO. Informalmente, os três podem compor uma trilogia sobre a efemeridade do mundo pós-moderno contemporâneo estraçalhado em pequenas narrativas que buscam a completude, em vão – tal qual um mapeamento da totalidade.
 
Se em Árvore e Amor, o diretor esboçou a forma de figurar o nosso tempo, em Knight of Cups ele radicaliza nas pequenas narrativas que encerram-se esvaziando-se em si mesmas. Ver o filme é como acompanhar uma timeline do Facebook ou do Instagram. Pequenos fragmentos de uma realidade mais ampla, cuja velocidade em que acontece impede sua decantação. Dessa forma os pequenos pedacinhos pontiagudos jamais se encaixam como um quebra-cabeças, mas criam vida própria.
 
Caracterizando a pós-modernidade a partir dos fragmentos, Jameson aponta, resumidamente, tal qual nossa experiência é moldada, no nosso tempo, somos impedidos de unir passado, presente e futuro [na verdade, o que ele diz é bem mais complicado e profundo do que isso, e parte de Lacan, por si só, nada simples de resumir, mas para o efeito aqui, isso basta]. A experiência de uma rede social cai nesse mesmo vácuo do fluxo contínuo, do presente eterno (ou talvez passado eterno). O filme de Malick trabalha nessa chave da incapacidade de diferenciação do presente-passado-futuro, de um fluxo no qual temos a visão da experiência, e raramente a experiência em si.
 
O protagonista Rick, interpretado por Christian Bale, é um roteirista em crise. Um homem de palavras sem palavras. Sem o poder da arte da palavra. Vaga de um lado para outro no seu metiê hollywoodiano. Vai a uma festa, sai com uma modelo (Freida Pinto). Tem um caso com uma stripper (Teresa Palmer). Briga com a ex-mulher (Cate Blanchett), que ressente não terem filhos. Engravida sua amante casada (Natalie Portman). Acompanha o irmão suicida (Wes Bentley), que briga com o pai (Brian Dennehy). O filme é o Rickgram. A ilustração das narrativas da vida desse personagem.
 
Nesse sentido, Malick capta nosso presente como ninguém, no qual tudo é efêmero. É um fluxo ininterrupto de imagens que ora caracterizam, ora esvaziam o momento, o personagem, nosso mundo. O longa é divido em segmentos, e cada um leva o nome de uma carta de tarô que irá o coadjuvante central daquela parte – sendo que, é claro, o Cavaleiro de Copas é o próprio Rick. Uma figura ligada a mudanças, a arte, e se entedia facilmente. Eis o protagonista.
 
Knight of Cups é o 8 ½ da pós-modernidade, um retrato de Hollywood composto a partir da estraçalhada memória emocional de seu protagonista. Sendo ele incapaz de ordenar suas lembranças, o filme embarca formalmente nessa proposição, realçada pela fotografia do grande Emmanuel Lubezki e a trilha sonora de Hanan Townshend              (que também conta como tema recorrente “Exodus”, do polonês Wojciech Kilar).
 
Temporalmente, talvez seja possível situar A Árvore da Vida como a representação do passado, do pós-Guerra, de uma década de modernização, e a destruição de uma família nuclear. Amor Pleno, por sua vez, seria sobre o futuro. Sobre um planeta agonizando na era da promessa da globalização. E, por fim, Knight of Cups é o presente da exacerbação das imagens fugazes. Três filmes para os quais muita gente torce o nariz, e até chama de estética de comercial de perfume, mas com essa trilogia o diretor faz uma investigação ampla sobre o que é ser indivíduo numa época em que a subjetividade é tragada, condensada e devolvida para todas as pessoas da mesma forma.     

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