Letras e fotogramas

De algum lugar, Fellini deve estar dando gargalhadas

Por Alysson Oliveira em 21/01/2010

Guido - 8 e meio
Guido... o verdadeiro, não aceite imitações, especialmente as musicais
 
De algum lugar, o grande Federico Fellini deve estar rindo, ou melhor, gargalhando, com mais uma tentativa (em vão) de emularem seu estilo, de ‘adaptarem’ a sua obra. O filme em questão é Nine (o título vai em inglês mesmo, o distribuidor não quis traduzir, talvez para evitar alguma confusão com a animação 9 – A salvação, lançada em cinemas no ano passado e já em DVD). Dirigido por Rob Marshall, coreógrafo que virou diretor com o premiado musical Chicago, o novo longa adapta (na falta de palavra melhor)  8 ½ - uma das maiores obras da carreira de Fellini, cheia de grandes obras.
 
Nine era, originalmente, um musical da Brodway, montado no começo dos anos de 1980 e remontado há alguns anos. Na versão original do palco, o protagonista, o cineasta Guido Contini era vivido por Raul Julia, o Gomez da série de filmes A Família Adams. O verdadeiro Guido (cujo sobrenome era Anselmi) foi imortalizado por Marcello Mastroianni. Nem entro no mérito se 8 ½ era biográfico ou não – até porque devia haver muito de Fellini no personagem, sim – mas é um dos melhores filmes sobre cineastas, ou então, sobre crise criativa e pessoal. Aqui, Guido é interpretado por Daniel Day-Lewis com um sotaque italiano pra lá de esquisito.
 
Nine deve estrear no Brasil na próxima semana e os produtores – especialmente a dupla de irmãos Harvey e Bob Weinstein – esperam/acreditam que o filme será um dos finalistas do Oscar nas principais categorias. É bem provável que concorra ao prêmio principal, afinal a tal Academia resolveu que a partir desse ano dez (!) títulos concorram ao prêmio de melhor filme. Como se em um ano Hollywood fosse capaz de produzir 10 filmes que merecessem algum prêmio, enfim...
 
Quando vi Nine ontem na sala de projeção no escritório da Sony não consegui gostar muito do filme – na verdade, exceto por Marion Cotillard, nada mais vale a pena. As músicas me irritaram.O engraçado é que hoje, ouvindo a trilha no computador, eu passei a gostar um pouco mais delas – ainda assim as acho muito fracas. É impossível comentar, no entanto, as coreografias. Marshall, sabe-se lá porquê, não deixa um plano durar mais do que 5 segundos. Eu fico me perguntando, pra que tanto trabalho em bolar coreografias, ensaiar, montar cenários, figurinos e rodar as tomadas se vai ser praticamente impossível ver qualquer coisa direito. Acho que Marshall já havia feito algo similar no premiado Chicago, mas lá, pelo menos, a história era carregada de um cinismo que aqui não há.
 
Marshall pode até tentar, mas nunca chegará perto do talento do coreógrafo e cineasta Bob Fosse- um dos criadores de Chicago e diretor de filmes como Cabaré. Esse, sim, foi capaz de adaptar para o cinema um musical baseado em Fellini (Charity, Meu Amor, baseado em Noites de Cabíria). Mas ele era um cara realmente talentoso – basta dar uma olhada em All That Jazz (disponível em DVD), um dos poucos musicais a ganhar uma Palma de Ouro em Cannes, além de outros prêmios, como Oscar de Melhor Filme.

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