Celulóide Digital

Um leopardo que ruge pelo cinema

Por Neusa Barbosa em 15/05/2010

Retrato da decadência da classe senhorial siciliana diante da república que avança, o clássico O Leopardo, de Luchino Visconti, foi apresentado nesta sexta (14) em Cannes em sua versão restaurada. Com certeza, foi um dos momentos mais mágicos da história de Cannes de todos os tempos e eu senti a emoção de fazer parte dele, disputando meu lugar na muvuca que é a entrada de quase todas as sessões do festival no primeiro finalde semana, ainda que você tenha sua credencial (4.000 outros jornalistas também têm!).
 
A mágica da sessão histórica vem não só por poder ver em primeira mão as espetaculares cores do filme, renovadas uma a uma sob a supervisão do fotógrafo do filme, Giovanni Rotunno, como pela presença na sala dos atores Claudia Cardinale e Alan Delon.
 
Envelhecidos e emocionados pelos aplausos, La Cardinale e Delon eram, ao mesmo tempo, a prova viva da decadência do corpo – inevitável para todos, mesmo as estrelas mais belas – e do esplendor imortal da arte cinematográfica, que eles representam tão bem.
 
O sentido maior do Tempo, o mestre dos destinos, estava naquela sala Debussy na noite de sexta, onde as imagens luminosas da história, adaptada do magistral romance de Tommaso Lampedusa, novamente ganharam vida, embalaram uma platéia lotadíssima – que esperou com impaciência o começo de uma sessão, lamentavelmente muito atrasada, 45 minutos para esperar o padrinho-mor das restaurações de velhos clássicos do cinema, Martin Scorsese. Que, para compensar, fez um belo pronunciamento, antes do filme, lembrando o significado ímpar dele para todos nós.
 
Na plateia, um jurado deste ano em Cannes, o ator Benicio del Toro, acompanhou a sessão toda. Do lugar onde eu estava, eu podia ouvir as risadas de Del Toro e espiar, de vez em quando, sua atenção ao longo do filme. Ponto para o jurado atento – azar de outros, como outra atriz do júri, Kate Beckinsale, que só fez um social no início da sessão e saiu antes do apagar das luzes. Azar dela.

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