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A Doce Vida imortal

Por Neusa Barbosa em 07/02/2010

50 anos depois de sua estreia, em 6 de fevereiro de 1960, A Doce Vida, de Federico Fellini, permanece fiel à feliz definição do jornalista Tullio Kezich – “um filme destinado a não terminar nunca”.
 
Quando se assiste a essa obra-prima, nunca se tem a sensação de que o filme foi feito há tantos anos. Ele parece estar acontecendo ali, naquele minuto, um animal selvagem disparado no tempo, uma seta apontada para todos os futuros. Fellini sintonizou emoções e verdades que sempre se renovam, mas estão sempre aí, dentro da própria vida.
 
Tullio Kezich, grande crítico italiano, bioógrafo de Fellini e que morreu no ano passado, participou de perto da construção deste filme mítico. Em meados de 1958, tinha sido escalado para fazer uma grande reportagem sobre o estado do cinema italiano, naquele momento em que todas as preocupações se voltavam para a morte do neorrealismo.
 
Nessa pesquisa, Tullio encontrou Fellini, no auge dos seus 38 anos, em pleno processo de criação de A Doce Vida. Tornou-se um passageiro do que ele mesmo chamou de “nave felliniana”, acompanhando a cada passo o processo de criação caótico, intenso e caudaloso que culminou no grande filme - que teve seis meses de filmagem, entre março e setembro de 1959 e passou por inúmeros percalços, como a troca de produtores.
 
Esse acompanhamento da gestação da obra rendeu um excepcional e delicioso livro de Tullio Kezich, publicado na época de seu lançamento nas telas e renovado em várias edições posteriores, a última pouco antes da morte de Kezich – e que continua, infelizmente, sem tradução brasileira.
 
Quem lê italiano não deve perder a chance de importar este indispensável Noi che abbiamo fatto La Dolce Vita – que inclusive é barato (o preço de capa gira em torno de 13 euros). Estão ali as sensações palpitantes de cada etapa de nascimento do filme, as impagáveis conversas com Fellini – que na época adorava dirigir e levava como passageiros seus roteiristas, consultores e o próprio Kezich muitas vezes -, com os atores, roteiristas, técnicos. Estão lá trechos de artigos saídos na imprensa italiana quando da estreia do filme, além dos sempre espirituosos comentários de Kezich, um dos melhores críticos da história da Itália.
 
Ao ler o livro, brota uma vontade irresistível de rever cada cena de A Doce Vida. O que de melhor se pode sentir a respeito de uma obra imortal ?

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