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A educação sentimental segundo Truffaut

Por Neusa Barbosa em 12/10/2015
François Truffaut é como Beatles – um clássico popular. E, no caso de ambos, uma espécie de educação sentimental de várias gerações, cada um na sua arte.
 
Dá para pensar muito em como Truffaut atravessa algumas das melhores emoções da nossa vida emocional ao percorrer as salas da imperdível exposição sobre o diretor francês, ainda em cartaz no MIS paulistano.
 
A exposição é uma revelação do caráter minucioso, obsessivo até, do diretor de Os Incompreendidos, Jules e Jim, A Mulher do Lado, Adéle H e de toda a saga Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud), seu alter ego. Estão nas vitrines desde ingressos de cinema de sua adolescência até fotos, cartas, folhas de anotações de ideias e roteiros que vão nos mergulhando numa mente inquieta.  Estão lá depoimentos de seus amigos, como o roteirista Jean Gruault, além do próprio Truffaut em momentos saborosos – como quando foi pegar seu Oscar de filme estrangeiro, por A Noite Americana, situação de uma leveza adorável, num agradecimento brevíssimo mas espirituoso e doce, compartilhável. Tão diferente destes agradecimentos imensos e pomposos de tantos de seus colegas...
 
Os fragmentos de seus filmes, que se pode assistir numa telinha, com direito a fones de ouvido – tornando a experiência individual, quase como um confessionário (falta a cortininha, mas tem a penumbra) reacendem a memória desses filmes fundamentais que ele fez (vários estão sendo reapresentados simultaneamente também no MIS). Enfim, uma experiência audiovisual completa, que faz lembrar e muito a falta que ele nos faz.
 
Estão lá suas principais musas – Jeanne Moreau, Fanny Ardant, Isabelle Adjani, Claude Jade, Catherine Deneuve... -, com suas imagens vivas projetadas nessas pequenas telas, misturando-as todas, como se dentro da exposição vigorasse um tempo próprio, um tempo do qual a gente hesita em sair.
 
Uma das minhas seções preferidas é aquela dedicada a Jules e Jim, um de meus filmes favoritos de todos os tempos, que reserva uma sala àquela cena em que Jeanne Moreau canta Le Tourbillon de la vie e, ao lado, projeta-se, numa série de cortinas transparentes que a gente atravessa, outra cena linda, em que Jeanne e seus dois amores correm numa ponte.
 
Outro tesouro está nos trechos de gravações das históricas entrevistas de Hitchcock, a quem Truffaut dedicou um livro fundamental (Hitchcock e Truffaut), inconformado com o pouco caso dedicado pelos críticos ao diretor de Psicose e Um Corpo que Cai. Nessas gravações, é possível ouvir a voz de Hitch, a tradução simultânea impecável de Helen Scott e os comentários de Truffaut. Imagina que bom seria ter tempo e condições de ouvir todas essas conversas aos poucos !
 
Enfim, quem não viu ainda, corra, porque a exposição só fica em cartaz no MIS até dia 18 de outubro. Não dá para perder.

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