Celulóide Digital

Três filmes para colocar a imprensa em foco

Por Neusa Barbosa em 04/12/2014

Três bons filmes para repensar o jornalismo estão chegando por aí.
 
Dois deles ainda vão estrear nos cinemas. Vamos falar primeiro do que fala de um fenômeno muito atual – embora não tenha sido inventado agora -, o jornalismo encharcado de sangue e sensacionalismo, esse o oportuno tema de O Abutre, de Dan Gilroy, estrelado pelo ator Jake Gyllenhaal.
 
O filme, na verdade, aborda várias coisas, mas a principal mesmo é como o jovem desempregado Louis Bloom, que vivia de roubo de materiais de construção, acha o filão da reportagem policial. Descobrindo que pode ser um free lancer e, com uma pequena câmera e o acesso à frequência da rádio da polícia, ganhar dinheiro revendendo seus filmes para uma emissora de TV, ele descobre sua “vocação” – devidamente estimulada, é claro, pela insaciável fome de sangue, de acidentes de trânsito a crimes hediondos, de que se nutre uma parte da programação da televisão.
 
A ideia é mesmo essa: que tipo de “jornalismo” ocupa vários programas longuíssimos, nas tardes em que mesmo crianças podem vê-los? E com um viés de “quanto pior melhor”? Que ética existe nisto? Assunto quente e que ganha neste bom filme uma interpretação empenhadíssima do ator Gyllenhaal, um de seus produtores. Estreia nacional prevista para 18 de dezembro.
 
Voltando os olhos para um passado não muito distante, O Mensageiro, de Michael Cuesta, traça o perfil de um personagem real, Gary Webb (Jeremy Renner), repórter de um jornal obscuro da California, o San Jose Mercury News, cujo esforço simplesmente revelou em primeira mão o escândalo do envolvimento da CIA com o tráfico de armas e drogas dos “contras”, fazendo vista grossa inclusive ao despejo de crack nos EUA, para obter dinheiro e financiar a oposição ao governo sandinista da Nicarágua.
 
Peixe pequeno, o repórter, pai de família endividado, com três filhos, sofreu um assassinato de reputação, com a decisiva ajuda de parte dos colegas dos jornalões – Washington Post, New York Times, Los Angeles Times e outros – que levaram o maior furo com a matéria dele. Os próprios chefes de Webb não seguraram a pressão do governo Ronald Reagan e da CIA. Por tudo isso, a história de Webb, que morreu de um jeito nada bem explicado, aos 49 anos, é exemplar. Ele sim foi um herói da liberdade de expressão e não se fala mais nisso. Estreia prevista do filme: 11 de dezembro.
 
Já passou em diversos estados do país, mas longe de esgotar seu público e, mais ainda, seu assunto, o documentário brasileiro O Mercado de Notícias, de Jorge Furtado, está chegando ao DVD. Ótima oportunidade para ver e rever uma das mais criativas e vigorosas reflexões, a que não faltam nem substância, nem ironia, sobre a própria natureza da imprensa – a partir da peça inglesa que dá nome ao filme, de 1625, de Ben Jonson – e um mergulho no estado de coisas no Brasil, em tempos em que ela atua, cada vez mais, como um partido político, com a desvantagem de que não é submetida ao filtro das eleições.
 
Ótima pedida – o DVD de O Mercado de Notícias pode ser adquirido pelo site da Casa de Cinema de Porto Alegre: http://casacinepoa.com.br/loja/mdn

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