A Viagem Imóvel

Tudo começa pelo título

Por Luiz Vita em 17/12/2009

Já escrevi várias histórias a partir de um título: ou a imagem me agradava ou o som das palavras me provocava. O que faltava era escrever a história. Era como um trabalho feito por encomenda, só que quem fazia e entregava o produto era eu próprio. Talvez os anos de trabalho como jornalista tenham me ensinado a ser persistente e não desistir de uma ideia; ou a empurrar o problema com a barriga até encontrar a melhor solução. Mas, em todos os casos, nunca deixei de encarar o desafio e iniciar o trabalho na hora mais adequada. Quase nunca cumpri os prazos estipulados, mas sempre soube perceber as margens de manobra de que dispunha. Era como andar na corda bamba, equilibrando o corpo ora para a direita, ora para a esquerda, em busca de um equilíbrio que, no final da travessia, me manteria vivo e no ponto em que queria chegar.

O título de meu primeiro conto surgiu de uma imagem bem humorada. A primeira providência foi escrevê-lo num caderno no qual eu desenvolveria a história (como ensinam os professores de escrita criativa).  Não precisei do caderno, pois nunca esqueci o título. Somente anos depois, sentado num vagão do metrô, comecei a escrever a história num bloco de anotações. Prossegui tempos depois em outro bloco e fui ficando com pedaços da história em cadernos diferentes, disputando as folhas limpas com as anotações que fazia para minhas reportagens. Às vezes escrevia à noite, em casa, antes de dormir, e retomava o trabalho no dia seguinte. Demorei a encontrar o fecho, porque queria que fosse bem humorado e elegante.

Só depois de concluída a primeira versão, levei tudo para o computador e comecei a martelar a pedra. Perdi a conta das versões que fiz, sempre em torno da mesma história e dos mesmos personagens. Quando coloquei o ponto final e decidi encerrar as versões e revisões havia se passado sete anos. Era um texto curto, enxuto, de duas páginas, em word, times new roman, corpo 12. Estatisticamente, devo ter escrito, em média, dez linhas por ano. Jack London se obrigava a escrever mil palavras por dia, independentemente de seu estado de ânimo ou de embriaguês. Mesmo sóbrio, sempre fui uma tartaruga perto do americano, bêbado