A Viagem Imóvel

Cage não me deixa na mão

Por Luiz Vita em 06/04/2011
Tenho verdadeira atração por filmes ruins. Sempre que vai estrear uma "obra de arte" dessas, peço para escrever aqui no Cineweb. Vi Fúria Sobre Rodas e posso garantir: o filme é impagavelmente ruim.  Isso não me impediu de prever que seria o campeão de bilheteria no fim de semana de estreia no Brasil. Como também acredito que o fato de ter estourado a boca do balão não significa que todas as 140 mil pessoas que o assistiram gostaram do que viram na tela.
 
No Brasil, filmes de ação (sejam bons ou ruins) sempre rendem bilheteria. Conheço gente que sai do cinema reconhecendo que o filme é ruim de doer, mas não se lamenta de ter perdido quase duas horas de seu tempo e ter ficado uns 20 reais mais pobre. Parece que o desafio de suportar bravamente roteiros medíocres, atuações pavorosas e cenários toscos é uma espécie de sacríficio a que é obrigada a se submeter. Como se estivesse pagando algum pecado ou tivesse feito algo inominável na encarnação pregressa.
 
Vou além na minha análise: ver filme ruim é uma espécie de Nosso Lar (filme também horrível) desse suposto pecador. Ou seja, é aquele pântano que ele tem de chafurdar antes de alcançar o aprimoramento pleno de sua alma. Por desenvolvimento espiritual pleno,  entenda-se estar pronto para ver filmes de Bergman, Truffaut, Kurosawa, Nelson Pereira dos Santos.
 
Sei que o sofrimento é grande, mas se esse é o preço para se estar pronto para receber a iluminação de espíritos cinematográficos de grandeza, acho que vale a pena.
 
No meu caso, que sonho um dia chegar ao Nosso Bar e não ao Nosso Lar, assistir filme ruim é uma espécie de esporte grotesco, como jogar futebol com bola furada ou rebater bola de tênis com raquete quebrada. É um desafio de superação. Estou testando até onde posso aguentar sem correr risco cerebral grave e permanente.
 
E Nicolas Cage tem sido um companheiro insuperável. Ela nunca me decepciona: tenho certeza de que o próximo filme dele será  sempre o pior.