A Viagem Imóvel

70 anos de Ali, uma luta, um livro e um filme

Por Luiz Vita em 17/01/2012

O boxe é um esporte curioso.  A primeira imagem que fica é a de que o esporte é violento, presenciado por sádicos. Também tinha essa impressão. Nunca gostei de lutas violentas, quando o risco enfrentado por um dos pugilistas é evidente. Não gosto de ver um homem ser humilhado, jogado ao chão como um animal abatido. Mas não deixo de torcer, mesmo contra toda a lógica do esporte, para o lutador mais franzino, mais desajeitado, com o calção mais feio e rosto mais desesperado. Muito raramente eles ganham, mas pelo menos tentaram.

Um que nunca deixou de tentar, mesmo quando suas chances eram mínimas, é Muhammad Ali, batizado com o nome de um guarda pretoriano romano (Cassius), que completa hoje 70 anos. O documentário Quando éramos reis, de 1974, registra a histórica luta contra George Foreman, no Zaire. Lá estava também o escritor Norman Mailer, que acompanhou os bastidores e escreveu A luta, um livro-reportagem sobre o combate.

Ali chegou ao Zaire derrotado e saiu de lá coroado. Ele debochou do oponente, mais forte que ele, desde que chegou à África. Dizia que venceria Foreman porque era mais jovem e mais bonito. No ringue, ele pedia para Foreman bater. Foreman batia enfurecido, disposto a acabar com o arrogante. Quanto mais batia, mais Ali ria. Parecia inabalável. Ali apanhava, mas também fugia graças a seu jogo de pernas. Foreman bateu tanto que cansou. Então Ali começou a lutar. E o resto é história. Foreman perdeu para si próprio, para o seu talento, para a sua força física. Ali ganhou, como ele disse, porque era bonito.

Hemingway, fã de boxe, também adorava emoções fortes. Sem o jogo de pernas de Ali, foi a nocaute no meio do combate.