A Viagem Imóvel

Fim do Belas Artes faz parte da invasão dos bárbaros

Por Luiz Vita em 12/01/2011
Não seria exagero afirmar que pelo menos três gerações de paulistanos começou a amar o cinema numa das seis salas do Belas Artes, numa época em que o circuito de filmes de qualidade se restringia a poucas salas na região da avenida paulista  e na região central da cidade.  Época em que, depois da sessão, os casais e amigos sentavam-se numa mesa de bar para discutir o que tinham visto, lembrar detalhes do roteiro, dos enquadramentos, da montagem. Época em que os sacos de pipoca eram minúsculos e em que os relacionamentos não eram virtuais.
 
Mesmo com todos os seus defeitos (que acompanharam o espaço desde o início de sua inauguração) os freqüentadores fechavam os olhos para as imperfeições (problemas na projeção, no som, nas cadeiras, no ar condicionado) e os abriam para o que se passava na tela. Com o florescimento do Espaço Unibanco, o surgimento do Frei Caneca e a boa programação e o charme do CineSesc, o Belas Artes entrou em declínio, mas se levantou com o patrocínio do banco HSBC.
 
O Belas Artes paga o preço pela especulação imobiliária, pelos impostos elevados e pelo avanço impiedoso do cinema de consumo despejado na esmagadora maioria das salas da cidade. Com o fim do Belas Artes, que fecha suas portas no dia 27 de janeiro, se reduz ainda mais o espaço para exibição de filmes de qualidade e, por tabela, o cinema brasileiro deixa de atingir uma camada ainda maior de público. Na rede comercial, filme brasileiro só entra em produções estreladas e dirigidas por profissionais globais ou num único dia de promoção. Depois, dá-lhe Harry Potter, tome bizarrices em 3-D.
 
De 14 a 27 de janeiro, um pouco da história do Belas Artes estará contada na bela seleção de filmes escolhidos para encerrar as atividades do espaço com chave de ouro. Clássicos como “O Encouraçado Potemkin”, de Serguei Eisenstein, “Morte em Veneza”, de Visconti”, poderão ser vistos juntamente com os brasileiros “Sargento Getúlio”, de Hermano Pena, e “O bandido da luz vermelha”, de Sganzerla. Só não será exibida “A Última sessão de cinema”, de Peter Bogdanovich. Aí também seria pedir demais para quem está na sala escura tentando superar uma grande perda.