A Viagem Imóvel

A Itália perde mais um mestre

Por Luiz Vita em 10/01/2015

 Autor de filmes importantes sobre a Itália do pós-guerra, o napolitano Francesco Rosi morreu hoje, aos 92 anos, e não deixa seguidores. "O Caso Mattei", "As mãos sobre a cidade" e Salvatore Giuliano" são obras-primas de uma corrente cinematográfica que os críticos chamavam de cinema-denúncia. Nisso ele foi mestre, ao mergulhar nas mazelas políticas e sociais da Itália, como a corrupção, a especulação imobiliária, o crime organizado, que também são mazelas em tantos países. Grande perda para o cinema, principalmente para o cinema italiano, que ultimamente anda tão pouco criativo.

Uma viagem no tempo

Por Luiz Vita em 05/04/2013

Uma história de amor e fúria, de Luiz Bolognesi, não faz feio ao ser comparada com produções estrangeiras. Acerta o diretor em mergulhar em fatos da história do Brasil, inclusive o período da ditadura militar, que ainda é citado de forma acanhada pelas produções nacionais. O filme foi realizado com técnicas de animação clássica: os personagens foram desenhados e animados com lápis sobre papel, a partir das emoções oferecidas pela performance dos atores. Selton Mello, Camila Pitanga e Rodrigo Santoro interpretaram o texto em estúdio e posteriormente a equipe do longa utilizou a gravação como referência para seu trabalho, uma técnica que permite resultados mais sutis e expressivos, valorizando o potencial do elenco e dos animadores. Nessa entrevista, produtores e equipe técnica falam como desenvolveram a parte futurística da história.

James, respeite Januário!

Por Luiz Vita em 31/10/2012

Se não fosse pelas belas mulheres, pelos carrões e pela vida charmosa de um agente secreto, a sanfona de Luiz Gonzaga teria falado mais alto, desbancado 007 e liderado a bilheteria brasileira em seu primeiro final de semana da estreia do filme Gonzaga - de pai pra filho, de Breno Silveira. Mesmo assim, meu caro James Bond, respeite Januário. Você pode ser mais famoso, mais sortudo com as mulheres, porém o velho Januário era mais tinhoso. Que o diga o Rei do Baião que voltou para casa botando banca, mas logo foi enquadrado.

Basta assistir à biografia do grande músico brasileiro para saber que de Moscou a Rancharia, de Londres a Bodocó, Januário é o maior. Salve Gonzagão, salve Gonzaguinha. Viva Dominguinhos, Viva Sivuca. Salve Borguetinho. Façam a sanfona gemer.

Woody Allen ainda paira sobre a cidade

Por Luiz Vita em 02/07/2012

A cidade ainda não se recobrou do efeito de Meia-noite em Paris (e isso vale para todas as cidades onde o filme passou) e Woody Allen volta com um novo filme, Para Roma com amor. Como o tempo passa. Um ano. Quatro estações. O diretor nova-iorquino sempre teve uma legião de seguidores fiéis, mas desde Meia-noite em Paris ganhou novos fãs de carteirinha, que agora não querem perder cada nova produção.

Os críticos reconhecem que o filme não supera o anterior em criatividade e humor, mas não deixam de recomendá-lo. Um jornalista de um jornal diário, por exemplo, enumerou uma série de defeitos do filme, dissecou todos os seus problemas. Mas, na nota de avaliação colocou: bom. O leitor mais desatento pode ficar confuso: se o filme tem tantos defeitos, como pode ser bom? Porque é um Woody Allen, ora! Porque nos faz lembrar de outros filmes seus, porque adoramos os lugares que ele mostra, porque saboreamos a trilha musical, porque nos encantamos com suas musas. Porque queremos viver eternamente essa fantasia que ele nos propõe. Era assim com Fellini, cujos filmes também pairavam sobre os espectadores, mesmo depois que as luzes do cinema se acendiam. Por isso corremos para o cinema, para continuar na ilusão que nossos sonhos continuam preservados na sala escura.

Um vigarista iluminado

Por Luiz Vita em 01/03/2012

O falsário brasileiro que tentou abrir conta numa agência bancária no Recife (PE), usando um RG com a foto de Jack Nicholson, virou motivo de piada no mundo inteiro por sua ação desastrada. Pior só se tivesse usado um revólver de sabão num dia de chuva. O jornal americano New York Daily News chamou o brasileiro de “um coringa que precisa de muitos ajudantes para sobreviver no mundo do crime”. Na verdade, o que a imprensa não noticiou - e que vocês podem ver aqui com exclusividade - é que o golpe poderia ter dado certo se o bandido atrapalhado tivesse usado outro RG entre os inúmeros que ele havia preparado como plano B. Agora ele se lamenta por não ter sido iluminado e usado a segunda foto. Como consolo, espera encontrar na cadeia parceiros do nível de Tim Robbins e Morgan Freeman para voltar a ter um sonho de liberdade.

Arte: Robson Lopez

Mamma mia, deram o Oscar pra Margaret Thatcher!

Por Luiz Vita em 27/02/2012

Todos sabem que o Photoshop nas mãos de gente despreparada ou mal intencionada é um perigo. O maquiador de Meryl Streep errou na dose e criou uma personagem que em nada se parece com a Margaret Thatcher real, apelidade de dama de ferro com muita razão.

Não satisfeita com o penteado a la bolo de noiva, a diretora providenciou uma maquiagem ainda mais profunda, na alma e no caráter da personagerm, tornando-a quase uma líder feminista. Só faltou trilha sonora do Abba para que víssemos nas telas uma reedição de Mamma Mia com gaita de fole. Na mesma faixa de pedestre que os Beatles atravessaram, em Abbey Road, Magy passou ao volante de seu trator atropelando todos que encontrou pela frente.

Rafinha nunca será Billy Cristal

Por mais brega que seja a festa do Oscar, alguns apresentadores fazem seu papel com alguma dignidade e até humor. É o caso de Billy Cristal que consegue fazer graça e se divertir ao mesmo tempo. Sabe dosar o humor sem ser grosseiro, se permitindo algumas brincadeiras que até fogem do politicamente correto.

As surpresas de terça-feira

Por Luiz Vita em 15/02/2012

As terças-feiras costumam ser dias de notícias ruins. É quando sai a relação dos filmes mais vistos do fim de semana anterior, apurada pelo Filme B, que o Cineweb destaca na home. É muito raro um bom filme bombar no gosto do público, na semana de abertura. Outro dia foi Agamenon, semana passada foi A filha do mal, e esta semana, Cada um tem a gêmea que merece. Quando vi o filme, tive uma ligeira esperança que ele não faria sucesso. Ele é muito ruim, pensei comigo, as piadas não têm graça. Mas, ingenuidade minha, o filme de Adam Sandler bombou em bilheteria, em venda de pipoca, de refrigerante, de dramin. Só me resta esperar que na próxima terça-feira A Invenção de Hugo Cabret conquiste a simpatia do público. Mas é bem capaz que a versão mulher de Adam Sandler continue dando as cartas.

Cinema e religião

Um ditado antigo ensina que não se deve discutir política, futebol e religião com ninguém. Por serem temas que despertam paixões, o melhor, nos ensinavam nossos pais, é melhor nem tocar no assunto. Mas, nem sempre fui prudente e perdi a conta de quantas vezes quebrei essa regra de ouro, principalmente em se tratando de política e futebol.

Para minha surpresa, descubro que existe um outro tema tabu: o cinema, ou melhor, alguns tipos de filmes sobre os quais você só pode concordar com a voz dos fãs. Não importa que o filme seja ruim, você não pode ousar dizer o contrário: corre o risco de perder o amigo ou de ser insultado se for crítico de cinema.

Na semana passada, uma crítica publicada no Cineweb sobre o filme Star Wars motivou uma avalanche de críticas e ofensas da legião de adoradores do filme. Um dos internautas reconheceu que o filme tinha defeitos, mas isso não era motivo para uma crítica negativa. Ou seja, eu sei que o filme tem problemas, mas não posso colocar o dedo na ferida.

Os fãs de quadrinhos também são implacáveis com os críticos de cinema e não perdoam o "desrespeito" aos autores ou personagens quando as críticas são negativas. Eu também fui fã de Superman quando tinha 13 anos, mas sabia que era tudo mentirinha. As melhores aventuras eu vivia diariamente na rua jogando futebol, empinando pipa, rodando pião, sotando balão (uma atividade altamente perigosa, como se reconhece hoje, quase terrorista).

Portanto amigos internautas, não levem tudo tão a ferro e fogo. Como dizia Lobão (o cantor e compositor, não o perseguidor dos 3 Porquinhos), "cinema é só ilusão".

70 anos de Ali, uma luta, um livro e um filme

Por Luiz Vita em 17/01/2012

O boxe é um esporte curioso.  A primeira imagem que fica é a de que o esporte é violento, presenciado por sádicos. Também tinha essa impressão. Nunca gostei de lutas violentas, quando o risco enfrentado por um dos pugilistas é evidente. Não gosto de ver um homem ser humilhado, jogado ao chão como um animal abatido. Mas não deixo de torcer, mesmo contra toda a lógica do esporte, para o lutador mais franzino, mais desajeitado, com o calção mais feio e rosto mais desesperado. Muito raramente eles ganham, mas pelo menos tentaram.

Um que nunca deixou de tentar, mesmo quando suas chances eram mínimas, é Muhammad Ali, batizado com o nome de um guarda pretoriano romano (Cassius), que completa hoje 70 anos. O documentário Quando éramos reis, de 1974, registra a histórica luta contra George Foreman, no Zaire. Lá estava também o escritor Norman Mailer, que acompanhou os bastidores e escreveu A luta, um livro-reportagem sobre o combate.

Ali chegou ao Zaire derrotado e saiu de lá coroado. Ele debochou do oponente, mais forte que ele, desde que chegou à África. Dizia que venceria Foreman porque era mais jovem e mais bonito. No ringue, ele pedia para Foreman bater. Foreman batia enfurecido, disposto a acabar com o arrogante. Quanto mais batia, mais Ali ria. Parecia inabalável. Ali apanhava, mas também fugia graças a seu jogo de pernas. Foreman bateu tanto que cansou. Então Ali começou a lutar. E o resto é história. Foreman perdeu para si próprio, para o seu talento, para a sua força física. Ali ganhou, como ele disse, porque era bonito.

Hemingway, fã de boxe, também adorava emoções fortes. Sem o jogo de pernas de Ali, foi a nocaute no meio do combate.

Vamos grunhir no cinema?

Por Luiz Vita em 22/09/2011

Sempre que algum filme de ação ou uma adaptação de quadrinhos chega ao cinema, uma parte dos aficionados por esses dois gêneros fica irritada com os críticos que, ó céus, não conseguem ver qualidades nas obras. Alguns chegam a ofender o pobre do infeliz que perdeu duas horas de sua vida vendo uma profusão de cabeças sendo decepadas, de carros destruídos, de bombas arrasando edifícios. Como, insistem, vocês não gostaram? Normalmente o crítico é aconselhado a se inteirar mais do assunto, ler gibis e tratados esotéricos para poder falar com propriedade sobre o objeto em discussão.

Que Woody Allen que nada, bom mesmo é o diretor  (quem, mesmo?) que dirigiu "Conan". Esqueçam Fellini, ignorem Clint Eastwood, cuspam em John Ford. Almodóvar? Kubrick? Joguem tudo no lixo, peguem um saco gigante de pipocas e se deliciem com o estilo do ator (quem, mesmo?) que interpreta Conan. Reparem em sua expressão facial, em seu gestual, prestem atenção em sua dicção. Ah, ele não fala, só grunhe? Melhor ainda, afinal naquela época as pessoas grunhiam mais do que falavam.

Esqueçam direção de atores, fotografia, roteiro, trilha musical. Nem se preocupem em aprender alguma coisa, em conhecer experiências de vida por meio dos personagens. Claro que a vida daquelas pessoas não tem nada a ver com a sua, a não ser que você também seja um decepador de cabeças (o que hoje em dia é ilegal e dá cadeia). Mas por que você iria querer ver nas telas algo parecido com sua vida? O bom mesmo é dirigir em alta velocidade, explodir umas bombas, despachar uns terroristas para o inferno, degustando um bom saco gigante de pipocas.

Sabe aquele curso de inglês que você queria fazer? Esqueça, agora a moda é grunhir.

Woody mania é a nova moda paulistana

Por Luiz Vita em 19/07/2011
Meia-noite em Paris virou mania em São Paulo e foi visto por pessoas que amam Woody Allen, pesssoas que o odeiam e pessoas que não sabem de quem se trata, mas ouviram falar que o filme é maravilhoso e "precisa" ser visto. Até quem foi ver outro filme e se arrependeu da escolha acaba dando a mão à palmatória: "Por que não fui ver o filme do Woody Allen?"
 
O filme estreou há várias semanas e ainda lota as sessões, principalmente nos fins de semana, nos horários nobres (entre 18 e 22 horas), quando ir ao cinema é o início ou o encerramento de um bom programa de fim de semana.
 
Dá gosto ouvir a plateia cair na gargalhada com uma piada envolvendo a testosterona exacerbada de Hemingway ou a obsessão de Salvador Dalí com rinocerontes. Ao aconselhar um colega de trabalho a ver o filme, o amigo fez uma ressalva: "Se você conhecer os personagens reais vai se divertir mais ainda". É a pura verdade.
 
Quem dedicou algumas horas de seu tempo para ler Hemingway, Fitzgerald e T.S. Elliot, ver filmes de Luis Buñuel, contemplar quadros de Picasso e Dali ou ouvir canções de Cole Porter, certamente se divertirá mais. Que sirva de lição para o futuro: leia bons romances e poemas, acompanhe exposições de arte, ouça muito jazz porque, quem sabe, você precisará dessa experiência no futuro para poder dar boas risadas no cinema. Pelo menos, fica a sensação de que o tempo não foi perdido e a televisão desligada não fez falta alguma.