Letras e fotogramas

Cada um infeliz à sua maneira: Relendo Anna Kariênina

Por Alysson Oliveira em 31/12/2018
Na introdução da edição de Anna Kariênina publicada pela Cosac em 2005 (e relançada pela Cia das Letras), o tradutor Rubens Figueiredo explica que, na fase dos rascunhos, Tolstói queria chamar o romance de Dois casais ou Dois casamentos, e, num primeiro momento, faz todo sentido: a narrativa é, a grosso modo, sobre os casais Anna Kariênina e Vrónski, e Liévin e Kitty. Mas muito antes de se chegar ao meio da trama é fácil entender porque o livro ganhou esse título definitivo.
 
Anna é o centro organizador de tudo. Por mais sutil que seja em alguns momentos – embora em boa parte deles seja bem escancarado – a vida das personagens tomam rumos resultantes das ações e escolhas da protagonista. O envolvimento de Anna e Vrónski, no princípio, por exemplo, causa uma desilusão amorosa em Kitty, que precisa rever sua decisão de esnobar o pedido de casamento Liévin – e isso é só o começo da narrativa que desencadeia uma série de acontecimentos. O amor aqui, aliás, está longe de qualquer romantização sentimentaloide (ou até sentimentalista, talvez). As relações amorosas são, ao fim do dia, relações sociais nas quais sentimentos nobres, às vezes, nem têm um papel tão preponderante.
 
Anna Kariênina talvez não seja muito diferente de uma novela das oito. É uma telenovela, mas com mais elaboração formal e profundidade nos personagens, mas sua trama, seus encontros e desencontros, reviravoltas e afins vão ao fundo de nossas expectativas mais primárias daquilo que esperamos de uma ficção – seja Tolstói, Machado, “Julia” ou Gilberto Braga. O que talvez assuste seja o seu tamanho, suas quase mil páginas.
 
Não é um livro difícil de se ler – é um romance ao modo da literatura realista do século XIX. Sua trama progride com segurança, não há longas digressões versando sobre a vida, a existência, Deus e o mundo. Nada disso. Tolstói segue seu grande elenco de personagens – a lista ao final da edição da Cosac ajuda porque eles são, ao longo da história, chamados por diversos nomes – dando-lhes vida, expectativas e fazendo deles figuras de uma alta sociedade infeliz em suas obsessões sociais.
 
É uma aventura – que se equipara possivelmente apenas a ler Guerra e Paz – de investigação social. Uma aventura sobre um momento da história de um mundo que estava prestes a ruir. Anna Kariênina foi publicado originalmente em forma de folhetim entre 1875 e 1877 – menos de meio século depois, a Revolução Russa chacoalharia a sociedade de Karenin e dos seus. Há muitas discussões sobre a questão social no romance – especialmente da parte de Liévin e sua relação com os mujiques. Os debates são sobre uma sociedade à beira de uma explosão (muito embora, a maioria das personagens não se dê conta disso) – as coisas precisavam mudar para (talvez) continuar as mesmas. 

"Karen", um romance noir bucólico encoberto de neblina

Por Alysson Oliveira em 10/12/2018
A cascata soturna da capa da edição brasileira de Karen é uma imagem relativamente recorrente ao longo da novela da portuguesa Ana Teresa Pereira, primeira mulher a ganhar o Prêmio Oceanos, em 2017, por essa obra. A narradora pode ou não ser a mulher que dá o título ao livro. Talvez ela não seja Karen, mas uma outra pessoa envolvida numa trama ardilosa, tanto que a certa altura, confessa “[às] vezes, tinha pesadelos, todos [moradores da aldeia vizinha] sabiam quem eu era de facto, todos faziam parte de uma conspiração.”
 
A narrativa já começa repleta de referências cinematográficas, evocando o preto-e-branco de Noites brancas, de Visconti, e o colorido extravagante em Tecnicolor de Narcisos negros, de Powel & Pressburguer. São nesses dois extremos – pendendo mais para o primeiro – que a trama irá transitar. Karen é uma personagem de noir, sua dúvida de identidade persiste. Ela supostamente sofreu uma queda durante um passeio na cascata, e foi tomada por amnésia – é quase um motivo de telenovela. Ela mora numa casa de campo com o marido, o escritor Alan (com sobrenome mas sem dinheiro), e uma governanta, Emily. Todos podem estar envolvidos num teatro fazendo a narradora acreditar que é Karen, pois, afinal, esta ao completar 25 anos (dali a poucas semanas depois do acidente) receberá uma herança.
 
A literatura noir é recorrente nas páginas de Pereira também – tanto na forma de narrar, um tanto oblíqua, mas estilisticamente trabalhada. A narradora não é nada confiável – nem para ela mesma. Seria esse um noir chic? Cornell Woolrich é citado mais de uma vez em seu pseudônimo William Irish. E a evocação das paisagens e da casa beiram o gótico:
 
“A vereda agora descia, e tornava-se mais íngreme em cada curva, havia degraus talhados na rocha, e um vago corrimão de madeira que surgia de vez em quando. O bosque estava mergulhado em si mesmo, senti-me que éramos intrusos ao atravessarmos.”
 
A protagonista se vê enredada entre a memória e a ficção, e, não menos de uma vez diz, em inglês mesmo, “Imagining... no, remenbering.” O que lhe é mais confortável? A identidade que lhe impõem de Karen ou aquela da qual supõe se lembrar? É nessa lacuna que se dá a sua jornada interior. Encontrar uma simbiose entre a mulher que fora e aquela na qual se transformou depois do casamento talvez seja sua necessidade.
 
A graça na obra está, então, na combinação entra a chamada alta literatura, a investigação psicológica à Henry James, aliada às formas consideradas mais populares, como o noir, o pulp. O resultado que Pereira mira e alcança é cinematográfico. Não apenas pelas referencias que abundam – Rebecca, de Hitchcock (a partir do romance de Du Maurier) é sorrateiramente evocado o tempo todo – mas como o enredo se apresenta. Karen é uma novela implorando para ser adaptada para o cinema. 

Em romance de Fernanda Torres, o fim é apenas uma fase

Por Alysson Oliveira em 02/12/2018
Poderia dizer-se que o fim é apenas o começo, mas seria clichê demais, e, no fundo, nem é o caso no romance Fim, de Fernanda Torres. O fim é mesmo o fim de um (talvez nem seja, vai saber o que vem depois, sabe-se lá onde), mas é só mais um momento – triste, feliz, libertário, indiferente... – na vida de outro. Ao centro da narrativa está um grupo de cinco amigos nascidos por volta do começo da década de 1930 que, no futuro, especialmente nos momentos de suas mortes, buscam aquilo que perdeu – seja lá o que “aquilo” é.
 
O livro parece começar de uma maneira esquemática, cada parte se abre com o monólogo interior dos amigos no dia deu sua morte – o que, obviamente, eles não sabem. O que segue depois seria a vida que segue daqueles que os cercavam – mulher, filhos, amantes e afins –, mas não custa muito, a autora abre mão dessa estrutura engessa e se aventura por um retrato de uma geração que pensou que ia mudar o mundo – ou, ao menos, viver intensamente, mas, no fundo, se acostumou com a vida cotidiana de classe média.
 
Há momento em que eles – Álvaro, Sílvio, Ribeiro, Neto e Ciro – tentam fugir da bolha, mas sempre há as consequências para as quais não estão preparados, se é que alguém algum dia estaria. Transitando entre o humor, a melancolia, a frustração e algumas pequenas tragédias, Torres encontra o que há de peculiar (e ainda assim comum a todos nós) na vida de cada um. Eles nasceram, cresceram, alguns se reproduziram e morrem. A ordem das coisas. Como seguir em frente sabendo que estamos todos fadados a isso? Os personagens, explicitamente, não se perguntam isso, mas, no fundo é essa a questão.
 
Os momentos da morte variam entre o começo da década de 1990 e 2014 – sendo que o livro foi publicado em 2013, isso é uma pequena ousadia divertida, a narrativa acaba no futuro, que, como diz Cazuza, repete o passado. Entre as linhas, entre as vidas e mortes do quinteto, temos o Brasil em transformação se reencontrando pós-Ditadura, pós-Collor, pós-tudo, como sempre. Não é um livro explicitamente político, mas sua crônica dos altos e baixos de uma classe média carioca faz pensar nas transformações culturais, sociais, políticas do país.
 
Embora seja atriz de drama, suspense e o que mais vier pela frente, Torres é mais conhecida pela comédia (injusto, ela tem ótimos trabalhos nos outros gêneros, vide Eu sei que vou te amar – que lhe rendeu prêmio em Cannes – e Terra estrangeira), espera-se (o público-leitor, não que ela tenha qualquer obrigação disso) algo de cômico aqui – e há, mas é um cômico triste, das vidas que não foram como planejadas, as frustrações e sonhos desfeitos. Se há um pequeno porém formal é que as vozes-narrativas dos amigos quando contam seus momentos derradeiros em primeira pessoa são um tanto homogêneas, meio parecidas, mas nada que afete no resultado final do romance.
 
Há um cinismo leve também. A prosa transita entre Nelson Rodrigues e seus subúrbios claustrofobicamente calorentos e Luis Fernando Veríssimo, com sua percepção cômica e certeira das dores e alegrias da vida privada. “O ato supremo do romantismo é o suicídio. Ruth nasceu com o defeito de ser feminina ao extremo e, por consequência, romântica em excesso” – frases como essa poderia ter saído da pena de um ou de outro, mas vem de Torres, que, com picardia, sagacidade e muito carinho desconstrói a vida de seus e suas personagens. Mas ao contrário dos outros dois autores, e, obviamente, por ser mulher, a autora é capaz de figurar o machismo naturalizado na nossa sociedade. Várias vezes sem de dar conta, os protagonistas se valem desse privilégio – até na hora da morte. E isso é a grande qualidade final de Fim