Letras e fotogramas

Doutor Jivago: Guerra e Paz – e algumas revoluções entre os dois extremos

Por Alysson Oliveira em 28/12/2017
Completando 60 anos de sua publicação original (na Itália), DOUTOR JIVAGO continua sendo um romance do século XX que parece um romance russo do século XIX. Num certo sentido, Boris Pasternak é um herdeiro de Liev Tolstói e seu Guerra e Paz. A narrativa começa no início do século passado, quando morre a mãe do pequeno Iúri Jivago, que passa aos cuidados do tio, um ex-padre que se torna militante. O livro acaba de sair numa nova tradução direto do russo, assinada por Sonia Branco (prosa) e Aurora Fornoni Bernardini (poesia).
 
A partir daí, Pasternak acompanha 40 anos da vida russa, o que inclui duas guerras, duas revoluções, uma fome gigantesca, um regime de terror, até seu epílogo melancólico nos anos de 1940. Entre uma coisa e outra, o protagonista ainda arruma tempo para ter três amantes e alguns filhos. É um romance repleto de ação, além de elucubrações sobre militância política, ideologia e revolução. Não há uma página no livro sem que aconteça algo, por isso chega a ser espantoso que Nabokov o tenha chamado de aborrecido.
 
Não que o livro seja destituído de problemas. O próprio Jivago é um personagem um tanto frágil, romântico, sonhador e ingênuo em diversos momentos, mas são as figuras femininas que mais espantam em sua simplicidade. Tonia, a primeira mulher do protagonista; Lara, seu grande amor; e as outras menores soam mais como idealizações femininas do que pessoas com densidade de sentimentos e ações.
 
Pasternak, antes de tudo era um poeta, e há passagens de profunda poesia na narrativa – além dos poemas “escritos” por Iúri Jivago publicados na última parte do livro – como essa, ainda no começo do romance:
 
Era um dia seco e gelado do início de novembro. Do céu cinza-chumbo desprendiam-se raras partículas de neve, que pairavam hesitantes no ar antes de tocarem o solo, para em seguida formarem uma poeira cinza e aveludada sobre os buracos do caminho.
 
Famosamente, o livro foi proibido na União Soviética (aparecendo oficialmente lá apenas em 1987, dois anos antes do regime comunista cair), e o autor foi obrigado a declinar o Nobel em literatura que recebeu em 1958, por “sua grande conquista tanto na poesia lírica quanto no campo da grande tradição épica russa”, segundo a justificativa, ligando sua obra poética com Doutor Jivago, e colocando par-a-par com Guerra e Paz, que é o romance que ocorre quando se pensa em “tradição épica russa”. Embora, obviamente, há bastante diferença entre o momento histórico da Rússia na escrita dos dois romances.
 
Em Doutor Jivago, Pasternak não parece condenar o regime comunista especificamente, mas qualquer governo totalitário, cujas ações passam como rolo compressores por cima dos indivíduos. O romance é um documento vivo da Rússia se transformando em URSS. Seus personagens são figuras de um momento de grande transição presos a uma tradição do passado e sem saber o que o futuro lhes reserva. Ainda assim, especialmente na figura de Jivago, Pasternak e seu romance sabem que a Rússia precisava passar por mudanças sociais – por isso mesmo, todo o caminho que a narrativa e seus personagens percorrem ganha tanta força.

Há 50 anos, o inverno eterno chegou para ficar

Por Alysson Oliveira em 04/12/2017
Gelo, a obra-prima da inglesa Anna Kavan (née Helen Emily Woods) completa 50 anos – uma edição comemorativa acaba de ser lançada, pela Penguin americana; no Brasil, o livro está esgotado, mas é possível encontrar em sebos – e se mostra tão atual quanto necessário. Mais do que isso, a autora toca em temas que, nesse meio século, ganharam projeção e se tornaram fundamentais, como catástrofes climáticas e abuso emocional contra mulheres.
 
O cenário de Gelo, como indica o título, é um mundo tomado por neve. Pouco se sabe sobre o cataclismo glacial, mas pouco se sabe como isso se deu – não importa. A trama é narrada por um homem sem nome que se diz soldado e explorador em busca de uma antiga paixão, a quem se refere como “a garota de vidro” com cabelo prateado. Pouco se sabe sobre ela, que é vista apenas como o gélido objeto do desejo dele. Ela é uma personagem vazia, destituída de mais características a não ser aquelas que o narrador atribui a ela.
 
Paredes de gelo estão se fechando, diminuindo cada vez mais o espaço habitável do planeta. O mundo é dominado por guardião poderoso que se torna o rival do narrador pela posse da Garota (ela é tratada assim, embora já seja adulta). Os interesses e desejos dela pouco importam para eles. Na medida em que o romance avança a disputa se torna mais acirrada, assim como os abusos que ela passa a sofrer – primeiro emocionais, e depois sexuais.
 
Gelo é um romance quase surrealista, de uma leitura dolorosa que beira o incompreensível. Não adianta tentar entender, tentar organizar a narrativa, buscar fatos concatenados. A trama é uma sucessão de fragmentos, cristais de gelo, que nem sempre se encaixam, mas uma constante permanece: o achatamento da subjetividade feminina.
 
O escritor Jonathan Lethem, começa sua introdução na edição da Penguin dizendo: “é um livro como a lua é a lua. Só há uma.” E essa é uma característica que diversos comentaristas destacam ao longo desse meio século: Gelo é único. O livro já foi definido, pelo seu editor, Peter Owen, como uma mistura entre Kafka e a série inglesa dos anos de 1960 Os Vingadores, e até isso, por mais bizarro que possa soar, faz sentido. Lethem, novamente, diz que os “primos mais próximos” que ele consegue imaginar para Gelo são o romance Crash (1973), de J. G. Ballard e os filmes Alphaville (1965), de Jean-Luc Godard, e O ano passado em Marienbad (1961), de Alain Resnais. Todos mais ou menos contemporâneos, mas o livro de Kavan traz um diferencial: sua percepção sobre a posição da mulher num mundo dominado por homens.
 
A autora morreu em 1968, pouco depois da publicação do livro, que, em inglês, nunca ficou fora de catálogo. Ela foi viciada em heroína, e seu protagonista/narrador usa drogas que o fazem ter alucinações, envolvendo a Garota, violência e pornografia. Publicado pouco antes da Segunda Onda do Feminismo, Gelo conecta a política global da época – a Guerra Fria – com uma espécie de violência contra a mulher. Tudo isso embalado numa prosa experimental – o que não é pouco. O resultado é um romance estranho, quase incompreensível, mas sedutor em sua força e poder.