Letras e fotogramas

Realidade estraçalhada

Por Alysson Oliveira em 06/12/2016
NOSSA SENHORA D’AQUI, da curitibana Luci Collin, é uma saga familiar. Mas uma saga familiar para a pós-modernidade. Um romance fino, de umas 150 páginas, que se lê rápido, mas tem um efeito duradouro. A autora cria micronarrativas pessoais – em 1a e 3a pessoa – que tentam dar conta do todo.
Numa espécie de romance-coral, nenhuma voz se sobressai e as conexões pessoais se apresentam de forma quase casual. Um parente de alguém aqui, comenta sem querer de alguém dali, ou um personagem de cá cita quase en passant outro de lá, e cabe ao leitor desvendar o que une e separa cada uma das figuras. Não é muito facil especialmente porque, como manda o nosso tempo, a narrativa histórica está estraçalhada, quando não inexistente.
É nessa criatividade formal – a primeira parte, por exemplo, vai da página 1 a 72, e a segunda, da 72 a 1 – que Luci encontra a distinção de seu livro. São histórias orais que tal qual os seus personagens buscam um passado que não encontram. Ela parece dizer que a narrativa genealógica de cada um é composta não apenas por parentes de sangue mas por todos aqueles que os cercam e ajudam (nem que seja de forma indireta) a construir uma identidade, seja ela pessoal ou familiar.
Há uma personagem, Homera Kortmann, de quem tudo parece irradiar, mas como manda o nosso tempo, é impossível ver esse “tudo”. Nós a observamos, e também a narrativa, por vários prismas, vários depoimentos, mas ainda assim, é impossível ter exatidão, porque alguns narradores se contradizem – ela roubou ou deu o botijão de gás? Ela realmente odiava crianças? Ela disse isso ou a narradora imaginou?. Assim, cada pedacinho soma um quebra-cabeças que não se conclui. Exatamente porque ele não precisa de conclusão. Sua graça reside na sua “incapacidade” de se fechar.

Um silêncio que grita: A Resistência, de Julian Fuks

Por Alysson Oliveira em 01/12/2016
 
 
 
Há uma cena em A RESISTÊNCIA, do paulistano Julián Fuks, que é bastante reveladora, e acontece ainda no começo da narrativa, quando a família está no carro, e o narrador-protagonista e sua irmã, ainda crianças, entram numa disputa tipicamente infantil, e termina com ele dizendo que não é irmão dela. “[Você] não pode, você é meu irmão e vai ser meu irmão para sempre. Eu insisto, eu não quero, você não é a minha irmã e pronto, está decidido. Eu decidi.” A história vira uma anedota familiar, contada por anos. O que, naquele momento, nenhuma das quatro pessoas (os irmãos e seus pais) no carro parece se dar conta é que a outra quinta pessoa é o filho adotivo, que realmente não é irmão de sangue.
 
Pouco antes disso, o autor comenta: “Que força tem o silêncio quando se estende muito além”. E é certeiramente sobre nisso isso que será construído o livro: sobre os silêncios que são mais ensurdecedores do que palavras. Por muito tempo, não vamos ouvir a voz desse irmão adotivo, um personagem enigmático, mediado pelo olhar do protagonista. Ninguém tem nome, todos aqui têm funções familiares, o pai, a irmã etc.
 
Fuks trabalha a formação da identidade a partir da constituição familiar, mas também o passado histórico. Os pais, um casal de psiquiatras, vieram para São Paulo da Argentina, na época da ditadura, trazendo consigo um filho que adotaram assim que nasceu. Não sabemos – nem o narrador sabe – muito sobre a criança, e a história oficial é frágil demais – uma jovem mãe solteira de família católica italiana – mas pode ser verdade ou não. Tanto que a certa altura o narrador se questiona sobre as reais origens de seu irmão.
 
De certa maneira, A resistência lembra O Filho Eterno, de Cristóvão Tezza, um livro que combina diversos gêneros e criado a partir da experiência pessoal do autor, mas aqui as histórias nacionais são mais presentes – tanto do Brasil quanto da Argentina. Os pais eram militantes, e vieram passar um tempo aqui, e acabaram ficando. Lá, no entanto, no presente, as cicatrizes são mais gritantes, e a principal delas no livro são as Mães da Praça de Maio.
 
Não é à toa que a narrativa seja permeada por tantas perguntas. É um livro a procura de respostas, e que raramente as encontra. Talvez isso, simbolicamente, seja um reflexo da experiência histórica dos dois países reverberada nos dois irmãos – um argentino e um brasileiro, e dois países tão próximos, com trajetórias um tanto parecidas e maneiras distintas de as encarar. Talvez se o narrador brasileiro olhasse nos olhos do passado do seu país teria a mesma necessidade de, por um tempo, ficar calado, de se fechar no quarto como o seu irmão.