Letras e fotogramas

Um Saramago que não foi acabado

Por Alysson Oliveira em 18/12/2014
“Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas” é o romance inacabado de José Saramago que encontraram no computador dele, e a Cia das Letras publicou no final do ano passado – a razão disto, para mim, não fica clara. O romance é o que é: menos de 50 páginas de uma obra em andamento na qual o autor mexeu pouco – como fica claro nas 10 entradas de diário (de agosto de 2009 a fevereiro de 2010) publicadas aqui no livro. Parece-me mais uma publicação caça-níqueis – não pelo Saramago, é claro, que dali poderia sair um grande romance se ele não tivesse morrido antes de acabar.

Para justificar o preço, há três ensaios assinados por Fernando Gómez Aguilera, biógrafo do escritor português, Roberto Saviano (escritor italiano, “Gomorra”) e o brasileiro Luiz Eduardo Soares, especialista em segurança pública, e autor de “Elite da Tropa”, entre outras coisas. Sinceramente, esperava que os ensaios acrescentassem algo, justificassem o volume, afinal o romance-inacabado não o faz. Mas, não. Boa parte do tempo ficam tergiversando sobre a obra de Saramago, as entradas do diário e o quanto ele faz falta. Não que sejam mal escritos, longe disso, mas nenhum pega o touro pelos chifres, e enfrenta de verdade o fragmento de romance que acabamos de ler. As ilustrações de Günter Grass servem apenas para aumentar o número de páginas sem dizer a que vieram. Não vejo muito a quem possa interessar essa obra (quanto será que está aqui: 10%, 30% do que seria o livro pronto?), a não ser a pesquisadores do romancistas. Em todo caso, poderia muito bem ser disponibilizada num pdf gratuitamente no site da Fundação José Saramago, mas, né... Numa última nota: o final do livro ia ser genial. Se o português não mudasse o que planejou terminaria com um sonoro “Vai à merda”, proferido por uma personagem.

Meus Melhores do Ano

Por Alysson Oliveira em 18/12/2014

 

 

 

Nacionais:

  1. O Menino e o Mundo
  2. Riocorrente
  3. Eles voltam
  4. O Mercado de notícias
  5. Em busca de Iara
  6. De Menor
  7. Hoje eu quero voltar sozinho
  8. Avanti  Popolo
  9. O Lobo atrás da porta
  10. Ozualdo Candeias e o Cinema

 

Estrangeiros:

  1. Sob a pele
  2. Amantes Eternos
  3. Inside Llewyn Davis
  4. Amar, beber e cantar
  5. Nebraska
  6. Cães errantes
  7. Grande Central
  8. O Gebo e a Sombra
  9. The Rover – A Caçada
  10. O Congresso futurista

Menções honrosas – Boyhood, Ela, Guardiões da Galáxia, A imagem que falta, Instinto Matern, O Grande Hotel Budapeste

A Balada de McEwan

Por Alysson Oliveira em 04/12/2014

Ian McEwan pode até continuar em sua zona de conforto no seu novo romance “The Children Act”, lançado aqui recentemente como "A Balada de Adam Henry", mas eu a acho interessante e substancial o bastante para lhe render mais alguns livros.

O tema que se repete em sua obra é o fracasso do projeto de modernidade na Europa. Ainda tenho“Atonement” como seu grande livro – é no qual ele melhor figura essa derrota, e na forma, vai ao encontro do pós-modernismo. Aqui, o escritor está mais 'recatado', o livro é menos ambicioso, mas nem por isso menor. A questão central envolve uma juíza julgando o pedido de um hospital para fazer uma transfusão de sangue num adolescente Testemunha de Jeová, que sofre de leucemia. Tanto os pais, quanto o garoto, negam a transfusão, sem a qual o rapaz não deve sobreviver.

Mais do que as questões morais e éticas, o embate entre o público e o privado, a religião e a razão, o escritor fala do mal estar, da sobrevida de um mundo agonizante – tal qual o jovem, talvez.