Letras e fotogramas

HQ “O crime do restaurante chinês” discute o presente a partir do passado

Por Alysson Oliveira em 05/11/2018
O mês de março de 1938 começou com um massacre que marcou São Paulo. Era noite da terça de carnaval daquele ano, e supostamente um ex-garçom entrou num restaurante chinês onde trabalhava até pouco tempo antes, e matou quatro pessoas, dois colegas de trabalho e o casal de patrões. O suspeito do crime era um negro de 21 anos, chamado Arias de Oliveira, que foi julgado, inocentado (defendido pelo jovem advogado Paulo Lauro, que mais tarde seria o primeiro negro a ser prefeito de SP) e depois condenado a 30 anos de prisão.
 
O episódio já rendeu o livro O crime do restaurante chinês – carnaval, futebol e justiça na São Paulo dos anos 30, do historiador Boris Fausto, lançado em 2009, e agora, os quadrinhos O crime do restaurante chinês, de Guilherme Fonseca, que parte de um acontecimento histórico, situando a trama no passado, para falar do presente. A questão central na obra é o racismo, e a história é narrada do ponto de vista de Coraci – que assume o papel de Arias – filho de uma portuguesa e um negro, que se muda para São Paulo, vindo do interior.
 
A trama transita entre o restaurante, na Praça da Sé, e a Rua Direita, onde Coraci vai se divertir nas horas vagas. As ilustrações da cidade de São Paulo são impressionantes em sua riqueza de detalhes e reconstituição histórica. Além disso, o autor também cria um enredo paralelo, envolvendo um assassino em série que usa um casaco amarelo, e, cuja trama, mais tarde, irá se encontrar com a principal.
 
Fonseca – que assina roteiro e desenho – opta por uma combinação entre passado e presente formalmente em sua HQ. A trama se passa no final dos anos de 1930, e a arquitetura de São Paulo nas ilustrações – cuja pintura digital é assinada por Fonseca e Laís Dias, e a cor por Mauro Salgado – deixa isso bem claro, mas os diálogos e os personagens estão mais próximos do presente, criando um estranhamento interessante que investiga como o racismo perdura no Brasil.