Letras e fotogramas

Romance "Lá não existe lá" traz uma nova voz à literatura americana

Por Alysson Oliveira em 29/11/2018
Com Lá não existe lá, Tommy Orange estreia como uma voz sedutora, segura e necessária na literatura norte-americana. Membro das Tribos Cheyenne e Arapaho de Oklahoma, o escritor fala do seu universo: os americanos nativos na sociedade contemporânea. A questão central em seu romance é a identidade – como a construir num mundo cada vez mais fragmentado e excludente?
 
É por meio de pequenas narrativas que eventualmente se cruzam que o romancista faz a investigação. Diversos grupos de personagens viajam para um Powwow, um evento que, teoricamente, homenageia a cultura nativa, mas também, como tudo no mundo, foi comodificado. Ainda assim, a festa é uma maneira de manter viva a cultura desses povos e a transmitir às novas gerações.
 
Vivendo no ambiente urbano, seus personagens lutam com suas identidades e a sedução desse mundo que pode compelir os 12 narradores a se tornar algo que não são. Em uma entrevista ao jornal The Guardian, o escritor confessou que Clarice Lispector – em especial A hora da estrela – foi uma de suas maiores influencias. E não é difícil compreender isso, e identificar onde o americano e a brasileira se encontram: ambos colocam ao centro de suas narrativas personagens que são marginais tanto na literatura quanto na sociedade.
 
O grande esforço de Orange aqui é encontrar uma voz, uma maneira de narrar a experiência do nativo americano (assim como Lispector em relação à imigrante nordestina). Como constituir sua identidade e experiência – ainda mais: como trabalhar isso tudo na forma literária? É preciso inventar algo novo, diferente que subverta o romance burguês por excelência.
 
Em Lá não existe lá o escritor consegue na maior parte do tempo. Seu romance é grandioso e fluido em sua prosa. As narrativas transitam entre o cômico e o emocional, sem nunca desrespeitar os personagens. É um carinho muito grande que Orange tem por eles – afinal, são seus pares. É uma grande estreia, de uma voz que merece ser ouvida, e ainda tem muito a dizer. 

Tupinilândia: Um longo Vaga-lume para adultos

Por Alysson Oliveira em 27/11/2018
Talvez nem seja uma referência explícita para o escritor gaúcho Samir Machado de Machado, em seu Tupinilândia, a série de romances infantojuvenis Vaga-lume, mas dada a nostalgia carinhosa com a qual ele tanto evoca os anos de 1980, é pouco provável que isso não tenha sido uma inspiração.
 
Tupinilândia é o nome de um parque fictício construído na época do fim da Ditadura no interior do Pará. Seu dono era o empreiteiro João Amadeus Flynguer, ricaço de bom coração obcecado por Walt Disney e tudo o que seu nome (e marca) significa. A primeira parte do romance tem ao centro essa figura, um homem fascinante em seu espírito de aventura e o tino para negócios. Tudo é visto pelos olhos de Tiago, jornalista e ex-namorado de seu filho, contratado para redigir sua autobiografia.
 
O parque é a obsessão que também guia a narrativa do livro. Esse é um romance de aventura que evoca o espírito da série Vaga-lume – que fez sucesso com títulos como O mistério do cinco estrelas e A ilha perdida – para o bem e para o mal. No lado positivo, a aventura é bem orquestrada e constante; no negativo, os romances infantojuvenis eram curtos, e as quase 500 páginas, o livro de Machado tem problemas em se sustentar contando apenas com o ritmo de correria.
 
Machado é um escritor de ideias boas, e inventivo, capaz de conectar o passado com o presente se forçar, e criar um Indiana Jones brasileiro sem parecer cópia, mas em Tupinilândia falta o pulso forte de um editor para lapidar o material e deixar o resultado final mais sofisticado. A primeira parte em especial sofre de um mal que alguns julgam o maior pecado na ficção: mais descrição de atos e acontecimentos do que narração.
 
Talvez pela falta de confiança no leitor, tudo precisar ser excessivamente exposto – especialmente o contexto histórico brasileiro do começo e do final da ditadura. Por exemplo, há uma longa explicação em forma de diálogo sobre o Atentado do Riocentro, em 1981. Um amigo descreve a Tiago o que aconteceu – o que é um tanto estranho já que, por mais que o jornalista se confesse um alienado, era impossível que ele não soubesse o que houve. Isso na verdade, é um estratagema não muito refinado para contar para o leitor – especialmente os mais jovens – que pode não saber o que aconteceu.
 
A segunda parte, situada no presente, às vésperas do Impeachment de 2016, é mais bem resolvida. Um arqueólogo ganha uma bolsa de estudos e com sua equipe vai às ruínas do parque Tupinilândia, e chegando lá é surpreendido, e o romance, novamente, se torna uma aventura.
 
Machado claramente tem nos filmes protagonizados por Indiana Jones seu modelo, e até encontra uma espécie de “nazistas” nacionais  para serem seus vilões. A segunda parte tem uma leitura mais fluida, menos preocupada em se explicar o tempo todo – até por ser o passado recente, o escritor deve levar em conta que seu leitor contemporâneo tem em mente do que ele está falando. Tupinilândia é divertido, mas poderia ser mais enxuto – o excesso nem sempre funciona a seu favor. E os personagens não são muito complexos, mas isso é praticamente uma característica desse tipo de literatura, então, não é propriamente um problema.

HQ “O crime do restaurante chinês” discute o presente a partir do passado

Por Alysson Oliveira em 05/11/2018
O mês de março de 1938 começou com um massacre que marcou São Paulo. Era noite da terça de carnaval daquele ano, e supostamente um ex-garçom entrou num restaurante chinês onde trabalhava até pouco tempo antes, e matou quatro pessoas, dois colegas de trabalho e o casal de patrões. O suspeito do crime era um negro de 21 anos, chamado Arias de Oliveira, que foi julgado, inocentado (defendido pelo jovem advogado Paulo Lauro, que mais tarde seria o primeiro negro a ser prefeito de SP) e depois condenado a 30 anos de prisão.
 
O episódio já rendeu o livro O crime do restaurante chinês – carnaval, futebol e justiça na São Paulo dos anos 30, do historiador Boris Fausto, lançado em 2009, e agora, os quadrinhos O crime do restaurante chinês, de Guilherme Fonseca, que parte de um acontecimento histórico, situando a trama no passado, para falar do presente. A questão central na obra é o racismo, e a história é narrada do ponto de vista de Coraci – que assume o papel de Arias – filho de uma portuguesa e um negro, que se muda para São Paulo, vindo do interior.
 
A trama transita entre o restaurante, na Praça da Sé, e a Rua Direita, onde Coraci vai se divertir nas horas vagas. As ilustrações da cidade de São Paulo são impressionantes em sua riqueza de detalhes e reconstituição histórica. Além disso, o autor também cria um enredo paralelo, envolvendo um assassino em série que usa um casaco amarelo, e, cuja trama, mais tarde, irá se encontrar com a principal.
 
Fonseca – que assina roteiro e desenho – opta por uma combinação entre passado e presente formalmente em sua HQ. A trama se passa no final dos anos de 1930, e a arquitetura de São Paulo nas ilustrações – cuja pintura digital é assinada por Fonseca e Laís Dias, e a cor por Mauro Salgado – deixa isso bem claro, mas os diálogos e os personagens estão mais próximos do presente, criando um estranhamento interessante que investiga como o racismo perdura no Brasil.