Letras e fotogramas

As dores do crescimento nos dois longas de Lucile Hadžihalilović

Por Alysson Oliveira em 21/11/2016
É o clichê do clichê, mas lá vai: a infância é o momento da descoberta das coisas boas e ruins, das alegrias e das dores – mas, mais do que isso é o momento da incompreensão, pois (ora, ora) tudo é novo, e não se tem repertório para compreender boa parte do que se vê. Em seus dois longas, a cineasta francesa Lucile Hadžihalilović parece ilustrar essas ideias, mas de forma a fugir completamente de qualquer clichê ou armadilha. A grande qualidade de INNOCENCE (2004) e EVOLUTION (2015) é abraçar o estranhamento sem qualquer receio.
 
Isso se dá especialmente porque ela adota o ponto de vista infantil, de crianças descobrindo o mundo sem o compreender e sublimando em fantasias sua falta de repertório. Baseado numa novela do alemão Frank Wedekind, Innocence se passa numa academia de dança, onde vivem garotas pré-adolescentes. De onde vem e quem são não sabemos. Mas cada uma usa uma fita no cabelo relativa à sua altura. Mademoiselle Edith (Hélène de Fougerolles) é a professora, e Mademoiselle Eva (Marion Cotillard) é a instrutora de dança. As meninas ensaiam um balé para uma apresentação para uma plateia seleta, e dessa apresentação uma garotinha será escolhida para sair daquele internato. Os olhos que conduzem a narrativa são da pequena Iris (Zoé Auclair), que, por acabar de chegar à academia, sabe menos ainda que as garotas que estão ali há mais tempo.
 
Em Evolution, Hadžihalilović radicaliza com o estranhamento, colocando como cenário uma vila costeira habitada por meninos de 10 anos que vivem com mulheres com feições piscias. Quando os meninos são levados para um hospital – onde há apenas mulheres também com cara de peixe -, eles passam por procedimentos estanhos, e o resultado é uma mistura de Davids Lynch e Cronenberg em seu horror biológico e bizarro. Mas também há muito de Lovecraft nessas criaturas que mais parecem peixes do que humanos.
 
Os dois filmes começam com imagens subaquáticas (quase incompreensíveis em Innocence; e Jacques-Cousteaunianas em Evolution), que irão perseguir os personagens ao longo dos filmes. As recusas em explicações também são constantes nas duas obras, que, ao colocar a câmera “na altura” dos pequenos protagonista, nos trazem seus mundos onde a fantasia serve como a matéria que cobre as crateras de suas incompreensões, por isso não é de se estranhar que o filme transite entre o sonho e pesadelo – pendendo mais para o segundo.